A gente encontra todo tipo de pessoa mundo afora. Loucas, sãs, tímidas, passionais, inteligentes, tranquilas, engraçadas, intensas, despojadas, formais, e por aí vai. Eventualmente até torcedores do Fluminense aparecem aqui e ali. Cada uma dessas pessoas tem uma forma diferente de ver e viver a vida, e mesmo que essas diferenças sejam sutis, elas acabam se tornando salientes - se não de imediato, com o passar do tempo (ou em momentos extremos, como a disputa pelo controle remoto da televisão).
Existem 6 bilhões de pessoas no mundo. Algumas mais distantes, outras menos. E se por um lado a internet facilitou o contato entre literalmente o mundo todo, por outro a movimentação das fronteiras físicas é uma grande conexão discada, onde cada vez mais gente quer passar e cada vez menos gente consegue. Assim, é fácil falar com alguém do outro lado do planeta, mas combinar e levar a cabo um encontro fica ligeiramente mais complicado (ok, encontros são sempre complicados, mas vocês entenderam).
Certo. Com 6 bilhões espalhados por esse nosso mundinho, e cada uma dessas pessoas tendo uma personalidade diferente (não estou contando aqui fãs da saga Crepúsculo nem pessoas que costumam usar mais de um ponto de exclamação por frase), imagine encontrar alguém com as características ideais para mexer com você. Que tenha aquele jeito específico, combinado com aquele sorriso específico, com aquele olhar específico, aqueles seios específicos, aquela mentalidade específica. Que consiga reunir tudo isso em um pacote com o algo a mais, a cereja no bolo, o gol de barriga aos 46 do segundo tempo. E, ainda por cima, que viva em uma cidade ou país acessível, possibilitando encontros com pelo menos uma certa frequência.
Soa bastante como procurar uma agulha num palheiro, né? Ou, pior, uma agulha específica em um oceano de agulhas, com peixes-agulha, tubarões-agulha, polvos-agulha e petróleo-agulha derramado. Então, parando pra analisar de forma racional uma questão muito importante, alguém pode chegar e dizer que a expressão "amor", junto com toda a bagagem que ela traz, se refere a nada muito além de uma grande, incrível e feliz coincidência. Não pode?
Roteiro: Jane Goldman e Matthew Vaughn, baseados na graphic novel de Mark Millar e John Romita Jr.
Elenco
Aaron Johnson (Dave Lizeski/Kick-Ass)
Lindsy Fonseca (katie Deauxma)
Chloë Grace Moretz (Hit-Girl)
Nicolas Cage (Big Daddy)
Dave Lizewski é um nerd comum, que gosta de quadrinhos, pornografia online e é apaixonado pela mina mais gata do colégio. Daí ele tem um rompante de WATCHMEN, põe um uniforme massa e resolve virar um super-herói de verdade, mas a cobra acaba fumando pro lado dele quando uma máfia da pesada resolve tocar o terror pra cima do guri. E pra não bater as botas, o quase-super-herói conta com a ajuda de vigilantes com mais experiência no ramo e sequências de ação obliterantes.
Kick Ass é diversão absoluta do início até o final. Um barril de cerveja cinematográfico. Um filme que consegue misturar com extrema competência os absurdos do mundo dos quadrinhos com os absurdos da vida real e ainda ser coerente, cativante e original. Uma experiência tão intensa que, ao sair do cinema, o público provavelmente vai correr até uma loja de brinquedos e comprar uma fantasia do Batman para sair na rua desafiando trombadinhas.
Girls just wanna have fun.
A trama em si não oferece muitos atrativos, e até mesmo se perde quando busca uma abordagem dramática e pesada para as motivações de Big Daddy. Mas no que diz respeito às personagens e à forma como a história se desenvolve, há pouco a fazer além de aplaudir de pé: mesmo em um universo claramente absurdo, Dave é um protagonista extremamente crível, e a preocupação do roteiro em expor pequenos detalhes de seu comportamento (que à primeira vista pareceriam irrelevantes) contribui com isso. Da mesma forma, seus companheiros de tela conseguem se diferenciar sem soar estereotipados, construindo uma galeria de personagens insanas e divertidas e com suas particularidades (inclusive nas coreografias de luta: enquanto a do Kick-Ass é meio "atrapalhada", a da Hit-Girl é bonita e divertida e a do Big Daddy é direta e funcional). Assim, mesmo que o plot não seja lá um poço sem fundo de criatividade, o espectador fica roendo as unhas pra saber o que vai acontecer com aquelas pessoas que ele recém conheceu. E até mesmo as brincadeiras com certas convenções quadrinhísticas e cinematográficas (como uma narração em off falando sobre morte) são colocadas de forma orgânica na película, sem comprometer as cenas (abraço, Shrek).
Aos bons diálogos e encadeamento de acontecimentos do roteiro soma-se um apuro visual ÀS GANHAS, que auxilia a conferir ao filme uma dinâmica digna da seleção holandesa de 74. Apropriando-se do mundo dos quadrinhos sem medo de ser feliz, o diretor traduz para a tela elementos daquele universo, mas o faz de forma VITORIOSA - e apenas a sensacional "animação graphic novel" que mostra um evento importante já justifica todo o TITITI em torno do filme. Que possui sequências de ação absolutamente devastadoras, coreografadas visando apenas a destruição total de inimigos (e clichês) e espalhando sangue pelos cantos como se não houvesse amanhã (e se você não aguenta violência gráfica, vá assistir a um filme de maricas, tipo Comando Para Matar) - destaque para um momento onde Hit-Girl toca o terror na bandidagem emulando DOOM e uma cena em uma pequena biblioteca. Tomado de assalto por transições inspiradas, Kick-Ass ainda possui na bagagem uma direção de arte que tem sucesso extremo ao traduzir aspectos visuais dos quadrinhos para o cinema (aliás, reparem como a casa de Dave é parecida com a vizinhança de Peter Parker em Homem-Aranha, ou como os uniformes conseguem ao mesmo tempo tirar sarro dos uniformes dos heróis e parecer eficientes).
Já o elenco está mais unido e comprometido do que a seleção do Dunga: como Dave, Aaron Johnson transmite carisma alucinado, e é fácil torcer por ele; Lindsy Fonseca é tão linda que fatalmente Deus a colocou no seu portfólio; e Nicolas Cage constrói um Big Daddy ao mesmo tempo "abobado" e letal, que o espectador consegue ao mesmo tempo respeitar e aceitar como piada. Entretanto, a dona desse filme é Chloë Grace Moretz, que torna assaz plausível toda a inocência e força destrutiva da Hit-Girl, conferinado às cenas de ação da personagem um caráter ao mesmo tempo cômico e assustador, sem deixar de lado a MEIGUICE de seu relacionamento com Big Daddy.
E qualquer filme que coloque uma pirralha de peruca rosa espancando marmanjos e faça o espectador, sem nem hesitar, aceitar isso como natural àquele universo, sem dúvida nenhuma merece a aprovação de toda e qualquer comunidade cinematográfica.
Nick Hornby surge aqui um pouco mais melancólico, arrisco até dizer mais maduro, e não tem pudor nenhum de fazer suas personagens comerem o pão que o Robinho amassou - e, uma vez que Hornby sabe como poucos fazer a gente cair de joelhos pelas pessoas que habitam a história, por vezes é cruel acompanhar o DESCENSO delas. Seu texto continua impecável, fluido feito o meio de campo da Argentina e recheado de insights inspirados, que ora levam o leitor a rir, ora deixam o leitor triste, de beicinho e pensando na vida. Ainda que não trabalhe certos temas tanto quando poderia, Juliet, Nua e Crua é uma das melhores e certamente a mais profunda do autor inglês.
De repente Annie se sentiu esmagada pela total inutilidade de seu relacionamento com Duncan. O relacionamento não era apenas irremediável na forma em que se encontra; sempre havia sido irremediável. Fora um desajeitado encontro nascido na internet, com um homem inadequado e entediante, mas que tinha durado anos, anos e anos.
Mestre dos Mares: O Lado Mais Distante do Mundo - Patrick O' Brian
Embora a história se passe durante as guerras napolêonicas, aqui a ação, tal qual um lateral esquerdo, fica em segundo plano. Porque Patrick O'Brian destrincha devastadoramente a vida em um navio de guerra, dando atenção a detalhes mínimos da embarcação e usando um vocabulário que deixará o leitor sem norte (desculpem, piada obrigatória). É joanetes pra cá, barlavento pra lá, todos atirados no texto sem a menor cerimônia - mas, longe de afastar o leitor, essa estranheza faz com que ele sinta que realmente está observando o cotidiano daqueles homens (e uma detalhada ilustração do navio, com suas partes devidamente nomeadas, diminui em uns 80% a ignorância náutica de qualquer um). O texto, bastante rebuscado e detalhado, insere facilmente o leitor na trama e puxa o gatilho da imaginação dele. Mas é o carinho e respeito com que O'Brian trata suas personagens, especialmente o capitão Aubrey e o Dr. Maturin, investindo na relação entre elas como se não houvesse amanhã, que torna Mestre dos Mares tanto um registro de uma época como uma cativante história de aventura marítima.
De sua parte, Jack sentia-se em perfeito contato com o seu navio: navegar à bolina cochada era algo que tanto ele quanto a fragata conseguiam fazer admiravelmente bem, e enquanto ele permanecia ali, oscilando com o balançar do convés, tinha a percepção das leves guinadas ou quebras no seguimento que esta realizava. Vestia um velho casaco azul, pois fazia uma fresca manhã, embora estivessem tão próximo da linha dos trópicos, e o borrifo e até mesmo a água compacta que varria a popa, cada vez que o Surprise ombreava um dos mares mais íngremes, eram ainda mais frescos, deixando com um brilhante rosado seu rosto recém-barbeado.
Tim Allen (Buzz Lightyear - voz)
Joan Cusack (Jessie - voz)
Woody, Buzz e toda sua trupe ficam apreensivos com seu futuro quando seu dono Andy está arrumando as coisas pra partir pra faculdade. Quando um mal entendido deixa os brinquedos em FRENESI, eles se bandeiam pra uma creche, onde terão a atenção de crianças para sempre. Mas as coisas lá são meio NACIONAL-SOCIALISMO STÁILE, e agora eles precisam dar no pé antes que Andy vá pra faculdade e a vaca vá pro brejo de vez.
A Pixar vendeu a alma ao diabo. Única explicação possível. Após toda a devastação proporcionada pelo genial Toy Story 2, não achei que conseguissem manter o ritmo. Mas conseguiram. Toy Story 3 é uma acachapante coleção de insights inspirados, cenas enternecedoras, ação empolgante, criatividade desenfreada e emoção de sobra. Em algum lugar do mundo, Shrek chora de inveja.
"Alô, é da Dreamworks? Depressa, vejam se tem um carro cor-de-gelo estacionado na esquina!"
E já na primeira cena isso fica claro, pois Lee Unkrich nos reapresenta àquelas personagens cativantes em uma sequência de tirar o fôlego, apropriando-se do universo de faroeste com extrema competência. O que torna ainda mais impactante a montagem que vem a seguir, ilustrando o crescimento de Andy e o consequente abandono dos brinquedos em um velho baú. Aliás, a principal preocupação do filme é desenvolver as situações para que o espectador se envolva com elas, ao invés de apenas assistir - assim, quando Rex grita empolgado "ele me pegou na mão!", o público ri por fora mas o coração DESFALECE por dentro. E, junto com toda essa carga dramática e nostálgica que temos pela gurizada medonha do Andy, vem uma trama que não soa repetida ou recauchutada, pelo contrário, obriga os brinquedos a se superarem cada vez mais para transpor os obstáculos (físicos e emocionais - o que dizer das cena de Woody na casa da Bonnie? Muitos filmes "adultos" não têm culhões de criar esse tipo de conflito). É uma evolução natural de Toy Story 2, que já era uma evolução natural do Toy Story original. Prova disso é o apreço do espectador pelas personagens, que recebe uma dose de fermento na veia e cresce exponencialmente ao longo da projeção. E também o buraco negro que devora as entranhas do público em uma cena específica onde a turminha de brinquedos aceita de forma serena o seu destino.
Enquanto isso o mundo criado por uns e zeros mostra-se encantador e cheio de vida. Impressionante como a criatividade dos caras não tem limite, e o número de sacadas visuais que a produção alcança ultrapassa o PIB de alguns países (tipo o ataque dos macacos, o bebê posando de "alcoólatra", a transformação do Sr. Batata, o brinquedo que muda de rosto, o xilofone que Woody tenta usar como escada, e por aí vai). A ambientação criada para cada sequência também merece um brinde com copos cheios de cerveja, pois ilustra a vitória total da direção de arte - em determinado momento, por exemplo, graças à fotografia e à inventividade PIXARIANA, gavetas de brinquedos se transformam em um opressiva prisão (e duvido muito que Clint Eastwood conseguiria escapar dessa); em outro, a utilização de cores quentes transforma a creche em um paraíso com Scarletts Johanssons correndo nuas pela relva. Soma-se a todo esse APURO visual uma trilha deslumbrante composta por Randy Newman, que fatalmente abateu passarinhos pelas ruas e retirou deles a melodia ideal.
Mas o melhor de tudo é ver Woody, Buzz, Jessie, Slinky e todos os outros fazendo balbúrdias cidade afora. Cativantes como nunca, os protagonistas de Toy Story 3 pegam o espectador pela mão e o levam junto nessa jornada que começou quinze anos atrás - e o desfecho, em mais uma posição corajosa da Pixar, que não se rendeu a um final exatamente fácil, fará até mesmo Jack Bauer deitar em posição fetal no chão e chorar os RINS. Não sei se teremos um Toy Story 4 pela frente ou não, mas caso isso venha a acontecer, nada de preocupação: sabemos que a Pixar não está de brincadeira com essa galera.
Navegando pelos mares bacanas do The Frontal Cortex, do ótimo Jonah Lehrer (já falei sobre um livro dele aqui no Cataclisma), me deparo com este post, onde ele discorre sobre como grandes sistemas não podem ser analisados ou definidos com equações ou telescópios. Peço licença para traduzir livremente um parágrafo que enche meus olhos de lágrimas:
Karl Popper, o grande filósofo da ciência, uma vez dividiu o mundo em duas categorias: relógios e nuvens. Relógios são diretos, sistemas ordenais que podem ser resolvidos através de redução; nuvens são uma bagunça epistêmica, "altamente irregulares, desordenadas, e, na maior parte das vezes, imprevisíveis". O erro da ciência moderna é achar que tudo é um relógio, e é por isso que somos seduzidos de novo e de novo pelas falsas promessas de scanners cerebrais e sequenciadores de genes. Queremos acreditar que vamos entender a natureza se encontrarmos a ferramenta exata para cortar suas articulações. Mas essa abordagem está destinada a falhar. Não vivemos em um universo de relógios, mas sim de nuvens.
De uns tempos pra cá, a humanidade desenvolveu um fetiche devastador por números. Centímetros, metros, calorias, datas, euros, dólares, reais, porcentagem de erros, de acertos, dados, proporções. É como se um número pudesse, por si só, justificar uma verdade. Estamos querendo decidir as coisas através deles, como se um argumento ou opinião muito bem elaborados empalidecessem frente a um totalitário conjunto de dois e cincos, quatros e zeros ou qualquer coisa assim. Porque daí não há mais a dúvida, não há mais a dubiedade, não há mais a discussão, não há mais a derrota.
Mas os números não enxergam tudo: este nosso universo está repleto de nuvens. Ter 102 cm de quadril e 70 cm de cintura não torna uma mulher bonita ou feia; faturar 900 milhões de dólares mundo afora não torna um filme bom ou ruim; analisar as estatísticas de um jogador de futebol não é o suficiente pra saber se ele joga bem ou não.
Porque nem tudo pode ser quantificado, assim como, acredito, tantas outras coisas não podem ser qualificadas. Não a toa Douglas Adams usou o "42" como resposta para a "questão da vida, do universo e de tudo mais": o inglês nonsense estava zombeteiramente jogando na nossa cara a nossa crença de que há uma resposta certa e absoluta, indiscutível, tão certeira e definidora quanto apenas um número pode ser.
E como sempre, Calvin e Haroldo ilustram a discussão de forma muito mais profunda, clara e estilosa do que eu:
Direção: Joe Carnahan Roteiro(?): Joe Carnahan, Brian Bloom e Skid Woods, baseados na série de TV
Elenco Liam Neeson (Hannibal - não, não aquele) Bradley Cooper (Tenente "Cara-de-Pau" Peck) Sharlto Copley (Murdock) Quintom "Rampage" Jackson (B.A. Baracus) Jessica Biel (mina)
Um grupo de quatro soldados de elite, com a experiência de veteranos e a mentalidade de adolescentes, é contratado pra recuperar um McGuffin umas placas usadas pra fabricar dólares americanos. Mas eis que eles são traídos e presos por coisas que não fizeram. Então resolvem botar ordem na casa, limpar seus nomes e gastar boa parte do orçamento da produção com cenas de ação.
Logo no início do filme, vemos o lettering "Em algum lugar do Iraque". Pouco depois, surge outro, com os dizeres "em algum outro lugar do Iraque". Além da piadinha meia-boca, isso já diz ao espectador que absolutamente nada naquela história será levado a sério, e e qualquer vestígio dessa tal de seriedade na trama será severamente fuzilado junto com os inimigos dos mocinhos. O que é um grande acerto, pois abre as portas para a diversão alucinada que permeia Esquadrão Classe A - afinal, os caras parecem estar se divertindo enquanto quase são fuzilados, e o elenco parece ter se divertido durante as filmagens, e diabos, isso faz com que o espectador goste deles e se divirta junto.
Até porque, se não fizer isso, vai dar com os burros na água. A trama do filme é inconsistente, mais furada do que dedo-duro de mafioso, e em nenhum momento chega perto de fazer sentido. Tipo, por que os dois vilões iam se aliar após um ter traído o outro? Eles não tem MEMÓRIA? E qual é a função da Jessica Biel na coisa toda? Além do mais, toda e qualquer tentativa de dar profundidade dramática falha miseravelmente (alguém realmente levou a sério aquela crise de consciência do Baracus? Ou o XAVECO entre Cara-de-Pau e aquela mina que precisa ser o romance dele?). Entretanto, quando se propõe a colocar seus protagonistas correndo e alucinados e destruindo coisas por aí, o filme ganha um pouco de vida(muitas vezes exagerada, claro: a piada sobre o medo de voar de Baracus perde a graça após a 88ª repetição). E mesmo que os clichês do gênero acabem diluindo a força do ato final (será que Cara-de-Pau será salvo no último segundo? Não percam) e alguns flashbacks carimbem a expressão "burro" na testa do público, há espaço de sobra para boas frases de efeito ("o exagero é subestimado") e para o carisma dos protagonistas.
"Temos um problema: faz 8 minutos que nada explode."
Do outro lado das câmeras o diretor Joe Carnahan trabalha com uma fotografia que puxa um pouco pra tons sóbrios e sombras, remetendo ao visual de filmes de guerra menos, hm, sem noção. Isso não apenas faz com que o espectador identifique prontamente aquilo tudo como uma zona de combates/espionagem, mas também cria um contraste interessante com a abordagem absurda da história - essa imagem "realista" torna as piadas mais imprevisíveis e, por consequência, mais engraçadas. Infelizmente a ideia de trazer à produção o conhecido OCP ("Operador de Câmera com Parkinson"), embora busque respaldo na tentativa de contribuir com os TREJEITOS de um filme de guerra, torna as cenas de ação mais confusas do que o meio de campo da seleção Brasileira. Tudo chacoalha, e todo mundo chacoalha, e eu não sei se aquele monte de containers no final foram derrubados pelas explosões ou pela câmera. Associar isso a uma computação gráfica CHINFRIM acaba tornando as cenas de ação um tanto bocejantes. Não me levem a mal, eu gosto de explosões, mas gosto ainda mais quando as coisas explodidas não são apenas uns e zeros.
Como já falei antes, a FANFARRA alucinada do elenco é o grande KAKÁ de Esquadrão Classe A, principalmente quando o carismático Sharlto Copley (de Distrito 9) está em cena, assim como Liam Neeson e seu nariz. Por outro lado, Jessica Biel mostra que, quando coberta de roupas, torna-se tão expressiva e sexy quanto uma PÊRA. Já os vilões não são nada além de um sistema de suporte para ganância e algumas frases de efeito.
Um filme absurdo, com uma história ridícula, efeitos ruins e cenas de ação que, além de previsíveis, foram editadas da mesma forma que um cozinheiro fatia cenouras. Ainda assim, é salvo pela simples diversão descompromissada, desde que o espectador esteja disposto a ignorar toda a balbúrdia nonsense feita por um bando de adultos que ainda vivem na adolescência - e não falo aqui dos soldados usando um tanque com pára-quedas, mas sim da equipe de produção bolando cenas de ação que custam muita grana, transformando elas em filme e gritando "é isso aí!" toda vez que surge a oportunidade de explodir algo.
Dizem as profecias que, a cada quatro anos, Deus desce escondido até a Terra. Ele então vaga incógnito por todos os países, convocando os melhores dentre os melhores, aqueles com capacidade de decidir uma vida em um segundo. E todos esses escolhidos são reunidos em um só lugar sagrado, onde entram em confronto, colocam suas habilidades à prova, suam sangue e respiram emoção, onde tentam escalar seu caminho até a glória máxima. Um Olimpo digno de seu nome. E nesse Olimpo o vencedor será eternamente lembrado por seus feitos. O sonho que acompanha o coração de cada homem deste planeta: a imortalidade.
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A Copa do Mundo até poderia ser definida deste jeito. Mas não estaria correto. Não é grandioso o suficiente, não é emocionante o suficiente. A Copa do Mundo, na verdade, é Deus acertando a Terra com o lado de fora do pé em um sensacional lançamento de trivela, ou dando um carrinho que corta a Via-Láctea. Ela nada mais é do que aquilo de mais puro que existe no coração do homem: futebol, diversão irracional e palavrões lançados sem perdão. A Meca de muitos e muitos bufões bêbados, cujos deuses vestem uniformes coloridos e penteados ruins, cuja ânsia por vitória se reflete em cantos mal ensaiados. Uma ode à simplicidade boêmia e infantil e troglodita que é a base de todo grande ser humano. E ao vencedor, as cervejas.
A Copa do Mundo começa amanhã. Acompanhem diariamente o torneio lá nos Imparciais, onde todo o falso romantismo futebolístico será substituído pela ácida e divertida verdade, nada mais que a verdade, em nome de Cesc Fabregas.
Depois do morcego, agora temos um cachorro aqui em casa. Mas esse foi escolhido, aprovado, passou pelo trote, recebeu o título de sir, foi adicionado no Twitter, enfim, é um bicho de estimação oficial. Um pequeno yorkshire, macho, peludo feito uma capa da Playboy dos anos 80, cujo único objetivo de vida parece ser o de mastigar seu caminho até o sucesso.
Eu queria chamar ele de "007", só que o resto do mundo não compartilha de um senso NOMINAL tão apurado quanto o meu. Ainda assim, é engraçado ver o cachorro correndo alucinadamente pela casa, esbarrando de fuça em todas as paredes, levando rasteiras de todos os obstáculos à sua frente e, por vezes, digladiando ferozmente com o próprio ar e levando a pior. Uma metáfora perfeita de como o otimismo da juventude nos leva apenas a resvalar e beijar o chão, ou bater de frente contra um muro. Do alto da minha maturidade cínica, é impossível não esboçar um sorriso de ternura ao ver tamanha disposição em reeditar o famoso carpe diem, conceito também conhecido como "tu já assitiu A Sociedade dos Poetas Mortos?".
Afinal, sei que logo vem a puberdade, e os conflitos, e os questionamentos, e a inocência se perde, e o Max, tão realizado nos dias de hoje, breve estará chorando pitangas no cantinho por causa de uma cachorra qualquer.
Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo (Prince of Persia: The Sands of Time)
3/5
Direção: Mike Newell
Roteiro: Boaz Yakin, Doug Miro e Carlo Bernard, baseados no jogo criado por Jordan Mechner.
Elenco
Jake Gyllenhaal (Dastan)
Gemma Arterton (Tamina) Ben Kingsley (Nizam)
Recolhido das ruas pelo rei da Pérsia, Dastan torna-se um príncipe e um praticante de PARKOUR. Mas quando o rei é assassinado e a culpa recai sobre ele, o guri precisa dar no pé com a princesa Tamina (também conhecida como BENZADEUS), provar sua inocência, descobrir quem está por trás da conspiração, impedir que essa pessoa libere uma tempestade de areia que vai deixar o mundo comendo POEIRA e, ao mesmo tempo, dar retorno financeiro suficiente pra faze de Príncipe da Pérsia o novo Piratas do Caribe da Disney.
Filmes baseados em videogames geralmente são ruins. Bem ruins. Dolorosamente ruins, digo. Mas quando o Jerry Bruckheimer pegou uma franquia clássica, sabia que ia mexer com os BRIOS da galera - então chamou Mike Newell, que provou ser um bom contador de histórias blockbusterianas em Harry Potter e o Cálice de Fogo, e fez a coisa acontecer de forma decente.
"Uma adaga mágica? Ora, CORTA ESSA, princesa."
Digo "decente" porque não dá pra ignorar algumas (ok, várias) CHOCARRICES da película. A velha história de "casal-que-se-estapeia-e-depois-se-pega" é uma solução fácil demais, e torna tanto Dastan quanto Tamina personagens unidimensionais pacas. Assim também é toda a trama da conspiração, que, para tentar ludibriar o espectador quanto aos envolvidos, aposta em situações tão forçadas quanto o primeiro encontro entre um rapaz e seus sogros (a cena onde culpam Dastan pela morte do rei, por exemplo). De certa forma, o roteiro se preocupa apenas em colocar as personagens em situações-chave onde cenas de ação DESCEREBRADA e graficamente computadorizada possam ocorrer. Algumas elipses também incomodam bastante, deixando o espectador momentaneamente se perguntando "UOU COMO ELES CHEGARAM ALI?", o que compromete a fluídez da narrativa. Mas no geral a estrutura convencional de formação do herói é mantida, e, se isso não é lá um arranha-céu de criatividade, ao menos trabalha com elementos e conceitos com os quais o público já está familiarizado. O típico "ok, sei que ela não é lá muito gata, mas vou pegar de novo porque sei que ali rola sexo".
Só que o Mike Newell é um cara legal. Até imagino ele tendo que segurar Jerry Bruckheimer numa coleira enquanto este corria babando pelo set gritando "efeitos especiais, explosões, efeitos especiais!", e falhando eventualmente. Porque no geral a parte visual de Príncipe da Pérsia é bastante competente: o diretor não tem medo de planos grandiosos, onde cidades construídas digitalmente soam bastante críveis, onde câmeras voam por cima de muros, onde Dastan saltita serelepemente de telhado em telhado. Aliás, as soluções visuais encontradas por Newell para traduzir os desafios dos chamados "jogos de plataforma" para a telona são o ponto alto do filme. Sempre criativas e dinâmicas, elas ocorrem de forma que o público identifique ali a ação videogamística e seja bombardeado com tiros de adrenalina. E embora algumas cenas de ação sejam exageradas e tenham câmeras lentas demais e as coreografias não sejam muito inventivas, o olho competente do diretor para fazer os planos funcionarem e detalhes (o céu aparece com a luz estupidamente estourada, quase branco, construindo todo o clima de calor opressivo no deserto), somados com trilha e direção de arte supimpas, tornam a narrativa agradável no geral.
Como Dastan, o herói viking e devastador da película, Jake Gyllenhaal consegue apenas fazer cara de URSINHO PIMPÃO. Sério. Eu realmente acho o sujeito um bom ator, mas ele realmente não convenceu no papel do cara que OPERA a jugular dos inimigos ao mesmo tempo que fica com a mocinha. Aliás, Gemma Arterton também não é das mais expressivas como a princesa Tamina, mas ela tem charme e possui todos os quilos muito bem distribuídos pelo seu corpo, então tá em casa. O resto do elenco se limita a olhar com cara de mau pros lados e fingir que eles realmente têm importância.
O que realmente, mas REALMENTE atrapalha Príncipe da Pérsia, é o seu final, uma grande PATAQUADA que foi colocada ali apenas pras coisas acabarem felizes. O tipo de apelação que atira o espectador pra fora do filme, que soa tão artificial e repugnante quanto aquele seu amigo que só passa da segunda fase do jogo usando algum derivado do código Konami.
- Certamente que sim, senhor. É um ramo de negócios extremamente procurado. Atendemos clientes das mais variadas profissões, status, renda mensal, bagagem cultural e mais.
- Tá, mas vem cá, como funciona? - Simples, senhor. O senhor nos informa qual é a sua necessidade e nós construímos uma solução adequada para ela.
- Certo. Então digamos, sei eu, digamos que eu chegue aqui e diga que preciso de um trocadilho legal para um filme chamado "A Bolha Assassina".
- Neste caso, senhor, nós lhe forneceríamos um pequeno briefing com algumas perguntas para identificar qual solução se adequaria mais ao seu problema.
- Incrível. Então vocês são realmente de verdade.
- Com certeza, senhor. Possuímos sede própria, website próprio, metas a atingir, CNPJ, missão, visão, valores, tudo que se aplica a qualquer empresa de negócios tradicional se aplica à nossa, senhor.
- Missão, visão e valores?
- Exatamente, senhor. Nossa visão é ser o melhor e mais lembrado fornecedor de trocadilhos do país; nossos valores são a conduta ética, comunicação clara e relacionamento transparente com clientes e colaboradores; e nossa missão é conquistar a Europa e a Oceania ou 24 territórios à nossa escolha, senhor.
O Final Alternativo ou Como eu Parei de me Preocupar e Passei a Amar o Magnetismo
Este final inicia-se após o episódio 14, ou seja, acontece do tenebroso episódio 15 em diante - tudo anterior a isso continua como mostrado na série. Por motivos óbvios de tamanho, vou me focar mais nos acontecimentos gerais do que em detalhes.
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Após a morte de Jin e Sun no episódio 14, as coisas seguem mais ou menos como no episódio 16: os losties vão atrás de Desmond, e o Locke CO2 invade a casa do Ben, matando Widmore e a mina dele e jogando Richard na floresta e tal. Então o Jacob chama os losties pro bate-papo e explica tudo: ele e o Fumacê sempre foram guardiões da Ilha, sempre existiram, apenas os dois, e ambos se chamam Jacob (vou continuar me referindo ao sujeito de fumaça de outras formas, pra evitar confusão). Mas um dia eis que um navio cheio de homens chegou ao local. Jacob não se envolveu e ficou no canto dele, só que o Fumacê achou interessante as ideias dos homens pra usar o magnetismo da Ilha, e ficou ajudando os caras. Quando colocaram aquela famosa roda, Jacob sentiu o perigo e discutiu feio com Fumacê - entretanto, não conseguindo convencer o irmão, Jacob partiu pra porrada e acabou lançando o CO2 bem no coração da Ilha, ou seja, onde o magnetismo tem força total. O Fumacinha teve seu corpo desintegrado e transformado em milhares de partículas (tipo o Dr. Manhattan em Watchmen), que ele passa a poder controlar e vira "o monstro de fumaça", e não pode sair da Ilha porque o magnetismo o prende. Sua única saída é destruí-la e liberar toda a força magnética, só que isso fatalmente inverterá os polos magnéticos da Terra e destruirá o mundo (tipo o filme 2012). Era esse o "mal" que Jacob se referiu quando explicou a função da Ilha a Richard. Jacob então diz que eles precisam matar o monstro de fumaça e pede pra um deles ser o guardião. Jack aceita, bebe a água sagrada e a galera vai atrás do Desmond.
Na realidade alternativa, aos poucos Desmond vai acordando os outros. Quando ele "acorda" Faraday, este pensa um pouco e chega à seguinte conclusão: a avassaladora força da Bomba H que Juliet explodiu, somada ao magnetismo e à coisa que estava causando as viagens no tempo (já explicarei sobre ela) criou uma espécie de buraco de minhoca, como uma defesa da natureza contra o paradoxo do avô (Juliet NÃO PODERIA explodir a bomba, porque ela nunca havia explodido antes). Ele explica que todo buraco de minhoca tem uma entrada e uma saída. A explosão causou a "entrada" e uma realidade que não pode existir (ao chegar no momento da bomba explodir, isso não acontecerá, e essa "falha" criará um looping temporal que destruirá o universo). Entretanto, eles ainda tem uma "saída" pra consertar tudo (mais ou menos como no filme Donnie Darko). Faraday faz alguns cálculos e descobre que a "saída" ocorrerá em 42 horas, 23 minutos e 48 segundos, exatamente na virada do dia 15 para o dia 16 (42-23-4-8-15-16). Então eles se prontificam a "acordar" todo mundo rapidamente para ajudar.
Na outra realidade, Ben pergunta a Locke Fumacê como a Ilha se move no tempo, e este explica: a "roda" canaliza uma ínfimo corte no magnetismo da Ilha justamente onde ele é mais forte. Isso cria uma espécie de efeito Casimir - como a força do magnetismo ali é descomunal, o que era pra ser um vácuo na verdade vira um mini-buraco negro no coração da Ilha, que a move aleatoriamente pelo tempo. Daí eles chegam até o poço e vêem que o Desmond não está mais lá (enquanto isso, Miles e Richard encontram Lapidus boiando no mar e vão todos pro avião, exatamente como aconteceu no episódio 17). Desmond então conversa com os losties e diz que sabe o que fazer. Assim, todos seguem para o QG do Widmore na Ilha B, onde encontram Miles e etc e armam um plano. Mas enquanto Desmond armava uma das cercas sônicas, Locke CO2 aparece. Desmond foge e é seguido pelo Fumacê.
Na realidade alternativa, Faraday se dá conta que Desmond é a constante entre as duas realidades, e que ele é a chave de tudo. Com a ajuda dos losties, constrói uma máquina semelhante àquela que Widmore usou em Desmond no episódio 11. Coloca o bróda no meio dos geradores e pergunta se ele está pronto, apenas para ouvir a resposta "See you in another life, brother".
Na Ilha B, Locke CO2 segue Desmond até um galpão, onde eles tem uma conversa cheia de frases de efeito e olhares penetrantes. Então Desmond pega o walkie-talkie e diz "agora Jack!", e percebemos que ele está naquele galpão onde Widmore o levou no já citado episódio 11 para experiências magnéticas. Ao mesmo tempo em que Jack aperta o botão da máquina de descarga magnética, na realidade alternativa Faraday aperta o botão da outra máquina, no exato momento da "saída". E tudo fica branco.
Quando Desmond acorda na Ilha B, ele não tem mais flashes da outra realidade. O status quo foi restaurado. A colossal descarga magnética direcionada para o Fumacê acabou com ele. Os losties se reúnem emocionados. Jack fica na Ilha como protetor, com Hurley e Ben como números 2. O resto vai embora. Uma sucessão de flashbacks rápidos passa na cabeça de Jack, mostrando tudo que aconteceu na Ilha, e ele sorri emocionado. A câmera dá um close no olho dele, totalmente marejado. Então ele fecha o olho. E LOST acaba.