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O assassinato das expressões pelo covarde corporativismo
André - 20 maio 2013 - 22:00
Percebo uma necessidade constante de corporativizar expressões. Palavras outrora legais como "experiência", "conteúdo", "produção", "impacto", "relevância" e mais algumas foram vítimas dessa epidemia tresloucada que sai por aí castrando as coisas de qualquer significado que não possa ser medido com estatísticas.

O que eu acho mais curioso é que as pessoas não se dão conta que tiraram a graça dessas expressões e acabam utilizando elas sem piedade nenhuma, apenas atirando cadáveres linguísticos ali na esperança de que o status deles frente ao mundo corporativo sobrepuje a completa falta de tesão do texto, um relato tão morto e vazio, tão cuidadosamente desinteressante, que parece quase uma vingança da própria gramática sua inevitável jornada rumo ao esquecimento completo.
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Meu amigo eletrocardiograma
André - 13 maio 2013 - 23:52
Não vou começar o texto dizendo que eu não gosto de hospitais porque, bem, sejamos sinceros, não há ninguém que goste de hospitais. Seria o mesmo que iniciar falando "lá estava eu, respirando, quando...". Afinal, a melhor coisa que pode acontecer em um hospital é você sair de lá normal, zerado, exatamente como você estava antes de decidir que precisava ir ao hospital. Mas enfim. Ocorreu que a vida gentilmente solicitou que eu fosse até o hospital Mãe de Deus, fizesse o registro do meu RG na recepção para que tivessem meu controle de acesso caso eu quisesse sair de lá roubando, sei lá, novocaína?, tentasse passar o cartão de visitante no leitor errado da catraca, recebesse instruções efusivas do segurança, acertasse, subisse de elevador, travasse um diálogo cordial mas seco com pessas atrás de um balcão e fosse nominalmente chamado ("André Nique Costa", mas pronunciando o "Nique" como se fosse "Nick", por sei lá qual motivo. Deve ser coisa da nova ortografia) para realizar um exame de eletrocardiograma.

Foi um exame de rotina. Pelo menos foi assim que o médico e a técnica o definiram, já que, como eu nunca havia feito um antes, aquilo era tudo menos rotina, e eu sinceramente achei insensibilidade da parte deles assumir que eu achava aquilo rotina, como se me eletrocardiogramasse o tempo todo. Além do mais, palavras com cinco sílabas ou mais só podem ser engraçadas ("estapafúrdio") ou intimidadoras ("eletrocardiograma", "vulcanização"). Assim, foi com muita coragem nas veias que acompanhei a baixinha de cabelos encaracolados, jaleco branco e incisivas frases de protesto contra o sistema de tantas horas seguidas de trabalho.

Entramos em uma sala cujas paredes mal pintadas de azul me passavam a tranquila sensação de estar em um ambiente cirúrgico montado especialmente para que um médico pudesse tratar feridos do cartel de drogas mexicano. O que é obviamente um exagero, já que a sala era impecavelmente limpa e asséptica como todas as salas médicas e todos os médicos, mas a impressão inicial foi essa. Era pequena, também, sobrando pouco espaço além da poltrona desvirtuada* e do gabinete que sustentava o equipamento, uma máquina que, em aparência e personalidade, era idêntica ao HAL de 2001 (aqui pode ser que minha imaginação tenha pregado uma peça e fosse apenas algo semelhante a uma impressora (se bem que qualquer coisa relacionada a impressoras nunca é tranquila)). Logo após ouvir uma mulher pedir para que eu tirasse a camiseta pela primeira vez em meses, deitei na poltrona desvirtuada e fixei o olhar no duto de ventilação, porque de alguma forma isso pareceu aumentar a segurança. E a baixinha de cabelos encaracolados veio primeiro passando gel e depois prendendo coisas com ventosas nos meus braços e peito e eu só não fiquei com medo de uma mulher com chicote e roupa de couro entrar na sala porque a coisa toda tinha uma atmosfera meio Matrix, tipo naquele momento em que eles acordam no mundo real, e daí eu lembrei que a Trinity usava uma roupa de couro no filme e um grande insight Matrix-nerds-sadomasô-cardiologia começou a pipocar na cabeça.

O insight foi interrompido pela experiência, que, contrariando todas as expectativas, foi completamente indolor e desprovida de qualquer desconforto físico ou psicológico. Vesti a camiseta de novo ao som dos planos imediatos da baixinha de cabelos encaracolados para fazer algo a respeito do sono que a aflige por ter ficado até tarde celebrando o dia das mães, desejando a ela sorte na empreitada de conseguir um café. Saí sozinho pelo corredor, atravessei a porta, desci o elevador, depositei o cartão no lugar indicado da catraca e me dirigi para a saída, onde o paradoxo "chuva + sol" me fez perceber que o status quo da rotina havia se restaurado após o exame. Estamos no Kansas novamente.

Mas voltei ao local na mesma tarde, com a promessa de que os resultados já estariam disponíveis. Eu era o único cliente/paciente lá, então logo dei meu nome e um sujeito educado, aquela típica educação do outro lado do balcão, começou a remexer em alguns papéis para achar a análise do teste, em um movimento rápido de mãos que faria muitos dealers de cassinos corarem de inveja. Mas não parecia encontrar. Passava de lá pra cá, cá pra lá, trocava a ordem, perguntava meu nome de novo, nada. A coisa ficou nessa dança de celulose por um tempo até que um diferente sujeito-educado-do-outro-lado-do-balcão cordialmente abriu uma gaveta, encontrou cordialmente os resultados do exame dentro dela e me entregou de forma cordial. E eu saí aliviado, em parte por ter nas mãos o exame e, em parte, por ter me equivocado durante a cruzada para encontrar o papel certo: enquanto o homem do balcão lá jogava folhas de um lado para o outro, vi um papel com um círculo vermelho e um "D" enorme dentro dele e logo pensei "pronto, rodei no eletrocardiograma".

*digo "desvirtuada" porque era uma daquelas poltronas edificantes, cujo habitat natural é a alguns metros de distância de uma televisão de oitenta polegadas, mas que aqui estava claramente sendo usada para propósitos inadequados.
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Só no hipnotismo
André - 08 maio 2013 - 21:20
Em Transe (Trance)
4/5

Direção: Danny Boyle
Roteiro: Joe Ahearne e John Hodge

Elenco
James McAvoy (Simon)
Rosario Dawson (Elizabeth)
Vincent Cassel (Franck)

Após cometer o vil e desprezível ato de roubar uma obra de arte, que só não é vil e desprezível quando é feito na internet, Simon sofre um daqueles ataques de "sujeito batendo na minha cabeça com uma arma" e esquece onde botou a dita-cuja. Mas os caras que pagarem ele pra roubarem a obra de arte (uma pintura, no caso) realmente querem saber onde ela está porque, sabe, eles pagaram pelo trabalho. Então levam Simon até uma moça que faz hipnose (uma hipnótica?), o que acaba desencadeando diversas sequências de de mistério, repletas de planos simbólicos e reviravoltas de reviravoltas de reviravoltas.

Em Transe possui uma trama entrecortada, que por vezes se passa na cabeça do protagonista, alterna espaços de tempo diferentes e outras coisas não-lineares. Pauta ideal para Danny Boyle, que curte uma narrativa mais rápida, frenética, uma narrativa com DDA algum desavisado poderia imaginar - entretanto, aqui ela funciona de forma inspirada, e Boyle conduz a película com um ritmo campeão. Ao menos até o final, quando é dada uma descarga em qualquer resquício de bom senso e a tentativa de surpreender o espectador de qualquer jeito pula para a lista de prioridades.

Vincent Cassel olhando para o roteiro do filme.

Mas vamos por partes, como diria um filme sendo transmitido na TV aberta. Aproveitando que temáticas envolvendo a mente abrem espaço para momentos onde a realidade não necessariamente é a realidade (embora normalmente seja), Danny Boyle investe em diversos recursos que criam uma atmosfera ligeiramente surreal, ainda que simultaneamente palpável (principalmente graças à fotografia escura, que sempre corre pra qualquer lugar onde tenha bastante preto): planos quadro-a-quadro (como stop-motion), camêra lenta, imagens desfocadas, transições fluidas (como a que vai do porão do bar para a casa de Simon), enquadramentos tortos e por aí vai. Além disso, os tradicionais planos curtos e a montagem ágil, que são tipo o RG do diretor, também dão uma mão nesse lance de surreal e etéreo e tudo isso mais que foi citado no parágrafo, pois se afastam diretamente de uma abordagem "realista".

Só que Danny Boyle, claramente envergonhado por ter vencido o Oscar por Quem Quer Ser um Milionário?, vai além e investe em simbolismos que fazem rimas entre temas e elementos da trama de forma puramente vitoriosa - por exemplo, o constante excesso de luz vermelha remetendo ao sangue do que Simon fez, a cena do futebol repetida, as luzes flutuantes em diversos lugares. É um trabalho cuidadoso, que vai se tornando mais visível conforme a história vai evoluindo, conforme a cabeça de Simon fica mais completamente tresloucada e perigosa e desprovida de sentido. O diretor ainda AGATHACHRISTEIA tudo ao deixar a câmera com frequência atrás de vidros, realçando a ideia de que nada é o que parece, e cria algumas sequências marcantes (quando Elizabeth toca uma gravação, por exemplo, que o áudio é calmo e os personagens estão intensos, ou a inspirada transição da trilha para a música no carro).

Infelizmente o roteiro, apesar de manter as coisas interessantes e brincar um pouquinho com aquela coisa chamada psicologia e tal, se acha muito espertalhão e acaba dando com os burros nas soluções comuns e desprovidas de qualquer resquício de inspiração: não só o filme começa com a tradicional e explicativa narração em off (há uma verdadeira epidemia de narrações em off no início de filmes, e ela precisa ser contida antes que alguma novela da Globo adote o recurso e o estrague para sempre), como não tem vergonha nenhuma na cara ao apelar para o momento onde a única personagem que sabe toda a história narra a balbúrdia do início ao fim, explicando cada ponto, se bobar até com alguma maldita nota de rodapé em alguns momentos (também conhecido como "Efeito Vanilla Sky") e, na tentativa de criar um final surpreendente, impactante, contrata um assassino profissional para dar cabo do bom senso - digo isso porque o desfecho torna tudo tão aleatório que a pessoa que realmente acreditar naquele planejamento é tipo a reencarnação da suspensão da descrença.

Mas ainda bem que a trilha atinge os pontos certos, sendo as vezes envolvente e as vezes mesclando-se com a ação em quadro (como o momento em que ela emula batidas de coração). Direção de arte e figurino também erguem as mãos em um high-five de sucesso (reparem como o figurino de Elizabeth sempre é monocromático e profissional), assim como o elenco: James McAvoy é carismático o suficiente para carregar o filme e, quando a cobra fuma, talentoso o suficiente para nos fazer acreditar que Simon realmente faz aquelas coisas; Rosario Dawson mantém movimentos contidos para dar a Elizabeth um ar sempre profissional, algo indispensável para levarmos a personagem a sério (e considerem que ela é uma hipnotizadora); e Vincent Cassel consegue ser ameaçador como Franck, ao mesmo tempo em que suas reações e entonações denotam a inteligência e até mesmo vulnerabilidade (até certo ponto) do sujeito.

Apesar de tudo, na maior parte do tempo Em Transe é envolvente e repleto de atrativos - com exceção de um ou outro tropeço que ele desce como cerveja no verão. Um belo esforço de Danny Boyle, que aqui utiliza seu talento e linguagem características (também conhecidos como TIQUES) a favor da história, e não o contrário. Pena que não gritou "corta" alguns segundos antes, evitando assim o desfecho embaraçoso, mas tudo bem, acontece. Não chega a hipnotizar a audiência, mas definitivamente prende a atenção.
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Um serial killer chamado tecnologia
André - 05 maio 2013 - 13:32
Parece que o grande denominador comum no surgimento de alguma nova tecnologia é o anúncio da imediata extinção da tecnologia anterior, como se o progresso fosse uma série de relacionamentos amorosos onde precisamos nos desligar do outro para aceitar o novo, isto é, um cenário bizarro onde a tecnologia aparentemente nos traiu enquanto estávamos no trabalho ou qualquer trauma assim e agora é necessário superar isso para aceitar o novo relacionamento ("existem muitos peixes com chips e placas eletrônicas no mar"). Assim, o CD veio para chutar a bunda do vinil, o mp3 chegou descendo o sarrafo no CD, o, sei lá, torrent? (Netflix?) surgiu jogando as dez pragas nas locadoras e cinema e, finalmente, Kindles e iPads aterrisaram no mundo para acabarem com os livros.

É claro que a convivência pacífica entre tecnologias atuais e passadas é algo fora de cogitação, uma aberração inominável que jamais passaria pela cabeça de qualquer pessoa decente, qualquer pessoa de bem, que tenha uma família respeitável e um emprego digno (oito às dezoito). Quem cogita essa possibilidade são apenas os retrógrados, presos no passado por alguma loucura e inevitavelmente, cedo ou tarde, deixados à própria sorte por não se adaptarem. A lógica deles é complexa, os verbos deles conflitam com o nosso - o progresso acontece para que a gente possa usar ele, não refletir sobre ele.
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Todo mundo é de ferro
André - 28 abril 2013 - 17:40

Homem de Ferro 3 (Iron Man 3)
3/5

Direção: Shane Black
Roteiro: Shane Black e Drew Pearce

Elenco
Robert Downey Jr. (Tony Stark)
Gwyneth Paltrow (Pepper Potts)
Ben Kingsley (Mandarim)
Guy Pearce (Aldrich Killian)
Rebecca Hall (Maya Hansen)
Don Cheadle (coronel James Rhodes)

Traumatizado após enfrentar um monte de CGI em Os Vingadores, Tony Stark tem problemas pra dormir, problemas com Pepper e passa o tempo construindo homens de ferro para serem seus amigos e jogarem Imagem & Ação com ele. Mas daí um terrorista chamado Mandarim começa a tocar o terror nos americanos e, para proteger seu país e seus amigos e sua noiva e seu ego, Tony veste a armadura e sai pra descer o sarrafo na galera.

Homem de Ferro 3 é o típico filme da Marvel: preguiçoso, seguro, se apoiando em piadinhas e efeitos especiais (e, no caso específico do Homem de Ferro, um protagonista completamente em chamas). É a fórmula de sucesso da FIRMA, e aparentemente vão investir nisso enquanto a galera continuar dando milhões de verdinhas para assistirem aos filmes - mas, se por um lado isso garante a comida no prato dos executivos da Marvel, por outro acaba resultando em coisas completamente desnecessárias, fazendo com que Robert Downey Jr. tenha que se desdobrar para que o filme não enferruje (desculpem).

A única pessoa do mundo que realmente tem problemas se esquecer onde deixou o carregador.

Mas há de se convir que, na real, a franquia é um grande playground/plataforma de exposição para o Beto Downey. E ele faz por merecer: compondo Tony Stark com uma energia frenética, inquieto, decidido, carismático ao extremo e com um timing cômico aniquilador, o ator pega o espectador pela mão e carrega ele até o final do filme - um competente e divertido showman. E em Homem de Ferro 3 ele trabalha junto com um elenco competente, que consegue criar cada personagem única e bem definida - com grande destaque, claro, para Ben Kingsley, que só não disputa corpo-a-corpo com Robert Downey Jr. porque aparece menos tempo. Ah sim, o Guy Pearce fica meio atrás dessa turma, mas ao menos aqui a maquiagem dele não é fracassada (abraço, Prometheus).

Infelizmente, o talento dessa galera atuante não é explorado como poderia porque, bem, porque Homem de Ferro 3 não tem exatamente uma história. É tipo uma colagem de piadas e cenas de ação e encheção de linguiça desenfreada. E não falo aqui nem de desenvolvimento de personagens ou de conflitos emocionais (apesar da coisa do trauma de Vingadores tente fazer isso, e há uma possibilidade nunca explorada de fazer algo no estilo "biologia x máquina", nunca concretizado), porque exigir isso de um blockbuster é meio que um convite à decepção (embora aconteça), mas do próprio andamento da trama. A impressão geral é a de que, após o Mandarim brincar de Lego com a casa do Stark, a produção fica enrolando pra ter mais tempo de tela. O investimento na história é tão raso que sequer há um motivo para o vilão fazer o que faz. Ele simplesmente comete atrocidades, e tem um plano completamente elaborado e tal, e aparentemente faz tudo isso para evitar o tédio, já que a película nunca explica o objetivo dele com toda essa balbúrdia. Isso torna Homem de Ferro 3 lento, arrastado, uma versão cinematográfica de domingo. E mesmo que tenha momentos inspirados ao longo da projeção (a forma inteligente com a qual Tony chuta a bunda de uma mina lá ou vários dos diálogos do protagonista), o filme volta e meia apela para soluções forçadas, como o inexplicável holograma do teatro (onde a linha divisória entre tecnologia e mágica é praticamente inexistente) ou diálogos ridiculamente expositivos (como quando alguém fala "então você vendeu para o Mandarim?", algo que já ficou claro na introdução do filme. Até na sinopse, se bobear).

Shane Black dirige o filme de forma competente, mas meio automática. Tem uma visão boa da ação e consegue deixar claro o que está acontecendo e quem está envolvido (algo particularmente difícil na finaleira, quando a robozada entra em cena sem piedade), mas, com exceção da já citada cena onde a casa literalmente cai (que é tensa pacas e consegue ser surpreendente), não há nada realmente empolgante ou envolvente. Não que seja ruim, também, apenas segue a cartilha com eficiência. Os efeitos especiais são espetaculares, e só aquela cena do avião já seria de dar tapinhas nas costas, mas isso já estava previsto no preço do ingresso (os efeitos sonoros são incrivelmente incríveis, também. Mereciam um Grammy). Toda a parte técnica, aliás, é bem redondinha, e até mesmo o cuidado com o design das várias armaduras é uma atração à parte (faltou alguma que fizesse homenagem ao Wall-E, mas ok, fica para a próxima).

Ou seja, Homem de Ferro 3, assim como o 2, é mais um filme insosso nesse grande buffet de INSOSSIEDADE desenfreada que são os filmes da Marvel. Tem momentos divertidos, é bem produzido, alguns diálogos bons, algumas piadas engraçadas, algumas cenas de ação legais, mas fica muito em terreno seguro, não tenta se arriscar a fazer melhor. Provavelmente venha uma quarta película por aí, mas, pela forma como os últimos dois filmes não fizeram jus ao ótimo primeiro, talvez seja a hora de Tony pendurar a armadura.

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A Torre Eiffel
André - 17 abril 2013 - 22:13
Quando voltei de Paris, em 2011, escrevi um texto sobre a cidade (que pode ser lido na íntegra aqui) - e, embora goste muito de todo o texto, tenho um orgulho particular pelo trecho abaixo, que considero um dos mais legais que já escrevi:

Eu odeio escrever coisas clichê. Odeio mesmo. Só que às vezes os clichês são a verdade pura e, nesse caso, a verdade pura é a seguinte: ver a Torre Eiffel ao vivo, cara a cara, tête-à-tête, é das coisas mais emocionantes que já fiz na vida. É uma estrutura monstruosamente grande, imponente, e, ao mesmo tempo, linda. Tipo a primeira vez que a gente vê o mar. Lembro que fiquei um pouco decepcionado ao descobrir que ela havia sido construída para a exposição universal de 1889, e não como monumento a algo ou alguém. Mas, pensando melhor, até que faz sentido: a Torre Eiffel é tão sensacional que só pode existir enquanto ela mesma, sem precisar de histórias ou adendos para elevar sua imagem. Ela é espetacular o suficiente para que sua beleza e história comecem e terminem nos 324 metros de altura que são o rosto da França.
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Hipnos
André - 15 abril 2013 - 21:09

Acredito que a grande característica da vida adulta seja aquela incapacidade de, em algumas noites, deitar na cama para dormir e entrar em um coma induzido pelas próximas dez ou doze horas. Uma habilidade treinada e utilizada à exaustão, mas que se perde em algum ponto de ônibus do itinerário da vida. É, de certa forma, uma perda tão psicológica quanto física: momentos que provaram ser possível duas espécies diferentes coexistirem juntas em plena harmonia - no caso, homem e colchão - já não se repetem mais. O conjunto deixa de existir.

Ando sofrendo com o sono socialista, aquele dividido entre várias partes iguais ao longo da noite, e experiências empíricas comprovaram que ele não funciona na prática (assim como o socialismo, se for parar pra pensar), permitindo à preguiça blitzkriegear cada célula do corpo. Como não bebo café e nem mesmo energético, dependo de uma sedutora latinha de Coca-Cola para manter a produtividade em determinados horários matinais.

Somando as conclusões dos dois parágrafos, temos o perfil de cada adulto do mundo: individualismo e crença nas grandes corporações. Ou seja, o grande problema que faz esse mundo ser tão endemoniado é, basicamente, falta de sono.
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Trinta e um filmes
André - 10 abril 2013 - 23:11
No livro 31 Canções, o escritor Nick Hornby investiga as (obviamente) 31 canções que mais influenciaram sua vida de um jeito ou de outro e escreve sobre elas - não as suas favoritas, não as melhores, apenas 31 canções que, boas ou rins, tiveram importância em algum momento de sua jornada.

Como NICKÃO é um de meus autores favoritos, sendo Febre de Bola uma subestimada enxurrada de insights brilhantes sobre o futebol e a vida, resolvi copiar descaradamente sua ideia, mas puxando para o lado que eu conheço mais - o cinema. Assim, iniciei o projeto 31 Filmes, que, ao longo de um prazo de tempo que eu não determinei e que provavelmente não cumpriria se tivesse determinado algum, farei comentários a respeito dos filmes que foram importantes na minha vida - não necessariamente os melhores ou os meus favoritos, apenas alguns que, bons ou ruins, se destacaram em algum momento da vida.

Portanto, é só acessar aqui e esperar pacientemente que eu me obrigue a escrever cada texto: http://31filmes.tumblr.com/
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Breves notas sobre viajar de avião
André - 02 abril 2013 - 20:31
- Todos os aeroportos possuem, obviamente, pistas de decolagem e pouso. E todas essas pistas de decolagem e pouso possuem enormes faixas de segurança em alguns locais. Não sei dizer exatamente qual é a função delas - acredito que sejam referência para determinadas ações dos pilotos, como, por exemplo, marcar o ponto inicial onde o avião inicia sua corrida desenfreada em busca dos céus. Entretanto, gosto de imaginar uma guriazinha tentando atravessar a pista por ali e sendo impedida por uma mãe que diz "cuidado, filhinha, espera o avião passar antes de atravessar";

- A percepção de que um avião é um avião só existe fora dele. Quando na parte de dentro, a realidade passa ser menos a de uma aeronave e mais a de um grande tubo asséptico e monocromático, repleto de gente entediada e apressada. Tipo uma repartição pública que voa;

- Dizem que a decolagem e o pouso são os momentos mais perigosos. Pode ser, não sei. Minha única certeza é a de que decolar junto com um avião produz uma das sensações mais esquisitas possíveis, pois, conforme anos de aprendizagem prática da física mecânica ensinaram ao corpo, a decolagem é seguida pela inevitável expectativa de que o avião logo comece a descer (o que acontece em qualquer propulsão cotidiana que nos tire do chão - um pulo, um tropeço, etc). É necessário reconfigurar todo o sistema nervoso (e de crenças) para superar isso, o que muitas vezes leva entre cinco e quinze minutos e frequentemente é externado de alguma forma - no meu caso, por exemplo, são os olhos fechados com força e a repetição constante do mantra "a gravidade é uma ilusão";

- Viajar de avião, aliás, é uma experiência de desapego completo do controle, visto que nem a ilusão de controle consegue embarcar junto. Um passageiro de avião simplesmente está sujeito a tudo que acontecer, sem poder tomar medidas preventivas e/ou reativas em noventa e cinco por cento das vezes. Seria a oportunidade perfeita para se resignar com o fato de que o mundo todo está além do alcance e relaxar, não fosse o fato de que é impossível relaxar quando se está a quilômetros de altura da zona de conforto;

- Dizer que mais pessoas morrem em acidentes de carro do que em acidentes de avião não me deixa mais tranquilo ao andar de avião, só mais nervoso ao andar de carro;

- As aeromoças possuem um nível profissional tão elevado que conseguem ser extremamente cordiais e frias ao mesmo tempo. Talvez por isso não atinjam aquele status fetichístico que se vê em outras profissões como enfermeiras, cheerleaders, médicas, salva-vidas, tenistas, empregadas, executivas, ginastas, atrizes, escritoras, cantoras, policiais, recepcionistas, protagonistas femininas de jogos de videogame, psicólogas, dançarinas, juízas, bandeirinhas de futebol, gandulas, vendedoras, cientistas, jornalistas, publicitárias (principalmente do setor de atendimento), repórteres, âncoras, artistas, tatuadoras, chefs e prostitutas.
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100 metros rasos para os 30 anos
André - 23 março 2013 - 12:41
Dia desses, como de costume, eu estava saindo do prédio onde trabalho para, como não de costume ultimamente, pegar um ônibus. Entretanto, como de costume toda vez que eu pego ônibus, ao atravessar aquele redemoinho de vidro e metal que batizaram de "porta giratória" vi o ônibus imediatamente deixando a parada para onde eu me dirigia. Um rápido cálculo entre a distância da próxima parada, a minha sofrível capacidade atlética e a incrível habilidade que o trânsito de Porto Alegre tem de jogar na retranca e fechar todos os espaços levou à conclusão de que sim, havia tempo de sobra para realizar tal plano insano. Assim, sem mais nem menos, disparei na correria desenfreada, carregando ainda nas costas uma mochila e uns bons sete ou oito meses desde que dei um pique assim.

A hora do rush porto-alegrense cumpriu seu papel, impedindo o ônibus de andar sequer 10 metros sem queimar uma Guerra no Iraque de combustível graças ao "arranca-e-para" (que eu carinhosamente chamo de "seleção holandesa"). Isso permitiu a minha triunfante chegada na parada com tempo de sobra, com direito à música-tema de "Rocky" tocando (na minha cabeça). Eu gostaria muito de dizer que todas as pessoas no local se levantaram (mesmo as que já estavam de pé) e aplaudiram e houve uma câmera fazendo um travelling circular naquele momento, mas a única reação ali foi aquele leve aceno de cabeça de solidariedade resignada (vocês sabem, quando a pessoa faz um quase-sorriso e franze a sobrancelha para tentar expressar algo do tipo "já passei por essa situação e entendo, mas não a um nível que me faça querer conversar ou fazer algo a respeito disso").

O que me surpreendeu, entretanto, foi que eu não estava ofegante. Apesar do longo período sem atividades físicas que se estendessem além do raio entre o sofá e a TV, cheguei bem à parada. Um pouco cansado, claro, mas nada além do normal. Foi uma corrida legal, e eu estava ali, inteiro, pronto para encarar a orgia de um ônibus lotado. Talvez o tempo não chegue na gente com tanta rapidez assim.

Daí fui subir no ônibus e percebi que meu joelho esquerdo, que até então havia ficado sempre na dele, iniciou um protesto enviando sinais nervosos ao cérebro que, sacana do jeito que é, os interpretou como "dor". Uma dor que dura até hoje, e que provavelmente vai ter que me levar ao médico, e que provavelmente vai resultar em algum tratamento.

Somando isso ao fato de que muitos amigos meus de idade semelhante já passaram pelos mais diversos apuros envolvendo a mesma região do corpo, inclusive com dois ou três deles rompendo os ligamentos, chego à única conclusão possível: a questão sobre a vida não é que o tempo vem e te deixa de joelhos; é que o tempo vem e te deixa sem joelhos.
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O maldito processo criativo
André - 18 março 2013 - 22:19
O processo criativo é algo que, normalmente, as pessoas têm em alta conta, tratam com uma certa reverência, independente de como ele acontece ou no que resulta (tipo o Tim Burton, assim). O que é muito bonito e legal e tal, confere aquela atmosfera de "artista expressando seus sentimentos e opiniões" que tanto faz as meninas mostrarem os peitos em shows de rock. Mas, na minha experiência, a situação é costumeiramente desgastante, repleta de encruzilhadas, indecisões, momentos onde o cérebro sai para almoçar e não dá sinais de que vai voltar logo. Sim, normalmente há um estopim que é aquele insight inicial onde várias ideias acabam se juntando para montar algo novo (processo que eu chamo carinhosamente de "Cognição Lego"), fazendo com que o cara se sinta iluminado e tenho que resistir à tentação de gritar algo como "eureka!" ou "é isso aí, cacete!" ou ainda "Juliana, estou te largando porque agora vou virar um escritor/músico/cineasta/pintor de sucesso e ter várias mulheres aos meus pés e um cachorro chamado Shakespeare".

Entretanto, o que se segue a essa empolgação inicial são horas de água batendo na pedra em busca de um espacinho mínimo para passar. É tudo tão pensado e exprimido até a último gota que me impressiona como a coisa eventualmente parece natural. Sabe quando vocês compram alguma coisa e a coisa vem com algum defeito e desencadeia um processo de troca estressante, infernal, muito possivelmente fatal para algum dos envolvidos? É exatamente assim que a arte acontece. Não à toa Philip Roth, ao se aposentar dos livros, disse que "a batalha finalmente terminou" e Douglas Adams cunhou a sábia frase "odeio escrever, adoro ter escrito".

Pensando a respeito, talvez o processo criativo seja uma grande metáfora da vida, onde batalhamos internamente, escondemos desejos, construímos uma personalidade apenas para parecer natural.  O mesmo processo que moldou estes três singelos parágrafos aqui é intrínseco a todos os seres humanos, fazendo parte de sua identidade desde sempre.

A conclusão é inevitável: pessoas são posts de blogs.
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Troca a marcha mas não troca o discurso
André - 09 março 2013 - 13:24
Acho que poucas coisas denotam com tanta força a preguiça da sociedade quanto o trânsito. Tipo, o trânsito é sempre ruim, e todo mundo sempre reclama, e todo mundo sempre faz algum gesto incisivo para reforçar seu argumento de que o governo ou as autoridades competentes ou algum aplicativo ou o destino ou outra pessoa devia consertar o trânsito, que segue tornando as ruas uma grande conexão discada e apontando o dedo para Robert Louis Stevenson e dizendo "você estava certo sobre aquele lance de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, cara!".

Falo isso porque, aqui em Porto Alegre, a situação se encontra em estado que só posso definir como tresloucado: motoristas brincam de quebra-cabeças com o posicionamento de seus veículos, ônibus passam tocando o terror no meio da galera, buzinas despejam ID pra tudo que é lado da algazarra. Deve ser até meio frustrante o cara ver todos aqueles comerciais de carro enaltecendo a liberdade apenas para comprar um e descobrir que a nossa liberdade só vai até onde começa a liberdade dos outros, nesse caso representada por um para-choque quinze centímetros à frente. E o pior é que a bunda dos carros sempre parece um rosto feliz, o que torna tudo ainda mais agoniante porque dá a impressão de que aquele amontoado de engrenagens e metal está tirando sarro de você.

O pior é que não há perspectiva de mudança. É como se tivéssemos sido vencidos pelos automóveis e fossemos obrigados a viver nessa ditadura de eterno estresse, sem nenhum Robespierre da vida chegar gritando "Liberté! Egalité! Formas alternativas de locomoção no espaço público!". E olha que os elementos que compõem a atual conjuntura automobilística na cidade (todos eles relacionados a expressões como "raiva", "frustração" e "bater a cabeça no volante") são bem parecidos com aqueles que dão início a uma revolução. Mas parece que o ditado se corrobora e nós, os criadores, estamos fadados a viver presos dentro de nossas criaturas, quer o sinal esteja fechado ou aberto.

Dentro desse contexto, o ar-condicionado é o ópio do povo.
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Breve análise dos últimos livros que li - 2
André - 04 março 2013 - 23:05
Como o post anterior foi um sucesso (UMA pessoa comentou), resolvi dar sequência:

A Erva do Diabo - Carlos Castañeda
Na verdade, foi a segunda vez que eu li A Erva do Diabo - provavelmente já tem algum post comentando o livro por aí. De qualquer forma, continuo muito impressionado com os relatos de Carlos Castañeda, a forma detalhista com que ele descreve os procedimentos passados por Don Juan e toda a vividez dos relatos alucinógenos (olha o paradoxo), que nunca são menos do que sensacionais. É tipo um filme do David Lynch na vida real. Mas o escritor não foca só nesse comportamento de membro dos Rolling Stones, mostrando também as explicações de Don Juan, o objetivo de cada planta, de cada viagem. A ideia, no geral, é fazer com que Castañeda abra sua mente para outras realidades (Phillp K. Dick deve ter adorado isso), e os alucinógenos são uma forma de, tipo, ligar o botão "turbo" nesse conceito. Só a parte final, mais focada em dados e exposta como um verdadeiro relatório antropológico é que mais uma vez me pareceu extremamente murrinha: pela segunda vez, não passei da quinta página.


Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas - Robert M. Pirsig
Romances filosóficos que realmente fazem o cara pensar, ao invés de simplesmente tentarem impor frases de biscoito da sorte ao longo da narrativa, são raros. Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas é um desses: através da viagem do Robert Pirsig por paisagens bucólicas americanas, somos apresentados a uma série de ideias sobre diversos assuntos (inclusive sobre ideias) e a um intrigante mistério, que acaba sendo a chave de tudo. É uma jornada de auto-descoberta cadenciada, contemplativa, perfeita pra ser lida em um fim de semana na praia com uma garrafa de cerveja ao lado, ou muitas garrafas de cerveja. Porque parece a versão impressa daquelas longas conversas que se tem com um grande amigo, sobre as coisas da vida, quando ambos estão no segundo estágio de bebedeira (quando já passaram da euforia e entram no momento de seriedade, pouco antes do desarranjo total).

Conversas com Scorsese - Richard Schickel
Ok, esse é um livro mais de nicho, mas nem por isso menos importante. Além de um grande cineasta e ostentador de sobrancelhas, Scorsese manja muito de cinema. E este livro reúne a conversa dele com o crítico Richard Schickel  onde discutem pormenores, curiosidades e decisões nos filmes do tio Martin e também reflexões sobre o cinema em geral. Por  vezes o crítico tem espasmos de Ricardo Teixeira e se acha mais importante e tenta aparecer mais na conversa, além de falar que nunca gostou de Clube da Luta, mas é um livro extremamente agradável de ler, repleto de curiosidades para os amantes do cinema e até mesmo aprendizados. Além disso, Scorsese parece ser uma pessoa incrivelmente broder.

Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo - David Foster Wallace
Pra mim esse é o livro de 2012, embora eu não tenha certeza se ele foi lançado em 2012 mesmo (e a descomunal distância de três metros entre nós dois agora é o suficiente para impedir que eu verifique a data da edição). De qualquer jeito, merece ser carimbado com a expressão "livro do ano"; o olhar extremamente perspicaz e inspirado de David Foster Wallace nessa coleção de ensaios só pode ser definido como chute de trivela no ângulo. A capacidade do cara de fazer associações e desenvolvê-las em frases tão bem construídas que certamente exigiram um projeto de engenharia antes é acachapante - e, ainda que com uma linguagem bastante rebuscada, essas frases muitas vezes são desconcertantemente engraçadas, fazendo o leitor gargalhar enquanto as pessoas ao redor pensam que ele é louco por rir sozinho. Nada aqui é previsível. Wallace sempre tem uma abordagem criativa e interessante para cada projeto, e parece fazer tudo com tanta desenvoltura que, durante a leitura, muitas vezes pensei "bem, é isso, sou um analfabeto". Recomendo fortemente a todos que gostam de coisas muito legais e que te deixam muito empolgado.

Paris é uma Festa - Ernest Hemingway
Na verdade, Paris é uma Festa nada mais é do que uma forma de se entristecer com a realidade: ainda que Hemingway com frequência lembre de suas dificuldades financeiras e das vezes que não tinha dinheiro sequer para almoçar, o livro basicamente acompanha o escritor enquanto ele escreve, passeia por Paris, toma vinho e faz viagens com sua esposa ou um de seus broders, tipo o F. Scott Fitzgerald, sabe? Por mais BONO VOX que o cara seja, sempre bate aquele suspiro de "por que eu não posso passar os dias em Paris escrevendo, enchendo a cara e andando com o F. Scott Fitzgerald?". Claro que é tudo um pouco romanceado, mas o texto do Hemingway é tão envolvente e cativante em sua simplicidade que é inevitável um efeito Meia Noite em Paris se apoderar do cara durante a leitura - e por mais alguns meses após o final.

Mais Estranho que a Ficção - Chuck Palahniuk
Assim como Ficando Longe do Fato... , este Mais Estranho que a Ficção é uma coleção de ensaios. No entanto, Chuck Palahniuk tem uma visão bem menos, digamos, invasiva das coisas. Ele escreve sobre pessoas que participam de dérbis de destruição de tratores e pessoas que constroem castelos com as próprias mãos sem nenhum julgamento, apenas colocando a história deles no papel. Na verdade, o Palahniuk sempre teve uma identificação com essa galera marginalizada, à parte da sociedade "comum", e aqui ele se mescla com esses corinthianos da vida de uma forma única. O livro ainda conta com momentos onde o escritor narra e reflete a respeito de histórias que aconteceram com ele mesmo, sempre chegando nesse olhar bem pessoal e alternativo, que as vezes é muito engraçado, as vezes é curioso, as vezes é extremamente impactante e sempre é muito bem escrito.

The Rings of Saturn - W. G. Sebald
É mais ou menos a mesma proposta do livro das BIKES ali em cima: sujeito vai fazer uma viagem pelo interior da Inglaterra, e, paralelo aos acontecimentos da pernada em si, fica reletindo sobre a vida e alguns eventos históricos que ocorreram por ali. Entretanto, ao contrário do livro de Robert Pirsig, The Rings of Saturn dança na corda bamba, alternando alguns momentos inspirados pacas com outros que tiraram a carta "maçante" no tarô. Apesar disso, e de não ser uma leitura muito fácil, o resultado final é positivo e o livro acaba inspirando reflexões e ideias. Só talvez seja bom ter em mente que essa não é uma daquelas obras do tipo "comecei a ler de noite e não dormi e liguei pro trabalho e disse que tava doente pra continuar lendo e cancelei o jantar de noivado à noite porque eu realmente queria saber o final da história".

Vertigem Digital - Andrew Keener
Andrew Keener é o autor de um livro chamado O Culto ao Amador, que não li, mas, pelo que entendi, xinga pessoas que têm blogs, o que torna uma ironia grande eu estar falando dele aqui. Mas divago. Em Vertigem Digital, Keener aborda o tema das redes sociais, mas de uma forma um pouco pessimista. Ok, bem pessimista. Ele comenta a respeito da perda de privacidade, do exibicionismo, da massificação do pensamento, da perda da identidade, entre outras coisas extremamente sérias. O autor fala que, ao invés de um Big Brother (o do Orwell, não o do Boninho), agora temos vários Little Brothers para ficar nos espionando e criando uma sociedade pasteurizada, onde a individualidade perece frente ao coletivo. Keener usa bastante estudos e exemplos e acontecimentos para ilustrar suas opiniões, e, mesmo que vez ou outra pareça um pouco exagerado ou fatalista demais, Vertigem Digital é uma leitura extremamente pertinente para estes tempos onde as pessoas fazem questão de expor tudo de suas vidas aos outros.

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Jogos, trapaças e um barbudo viajante.
André - 18 fevereiro 2013 - 21:45
A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty)
5/5

Direção: Kathry Bigelow
Roteiro: Mark Boal

Elenco
Jessica Chastain (Maya)
Jason Clarke (Dan)
Kyle Chandler (Joseph Bradley)
Jennifer Ehle (Jessica)

Após Bin Laden brincar de desmontar Lego com o World Trade Center e o Pentágono, uma equipe da CIA se arranca em uma caçada impiedosa ao barbudo. Maya, uma agente nova, chega já no início da fuzarca e, entre torturas e fracassos e pressões políticas e egos e ambições frustradas e solidão, passa 10 anos envolvida nessa caçada - mas será que, mesmo com o objetivo alcançado, é um final feliz?

Kathryn Bigelow já provou que é uma moça política. Enquanto seu ex-marido James Cameron sai por aí criando mundos, ela quer desvendar os significados deste mundo - algo que o brilhante Guerra ao Terror fez ao olhar para a vida dos desarmadores de bomba. E, neste A Hora Mais Escura, ela consegue mostrar não só a abrangência da caçada ao Bin Laden, mas o quanto ela significa, o quanto foi investido nisso (tanto no plano material quanto no psicológico), o quanto se ultrapassou a linha do aceitável, e por aí vai. É um olhar desmistificado, sem glória, sem patriotismo, mas com força suficiente para mandar o espectador para casa pensando no assunto.

Por exemplo, o filme aborda com pertinência a questão das armas nas filas dos banheiros.

O filme já começa intenso com uma cena de tortura que, sem ser exagerada ou gráfica em excesso, chega naquele status onde dá uma rasteira no espectador e fica socando a cara dele. É completamente impossível não se enternecer de forma definitiva ao ver um torturado soltar uma lágrima involuntária quando bebe um gole de água. De certa forma, ela define o sentimento americano pós 11/9: raiva, busca desenfreada por informações, tentativa de ganhar vantagem na força, vingança. E é emblemático que a novata Maya, claramente inconfortável assistindo a tudo (embora mostre personalidade ao decidir não usar a máscara), mais tarde passe ela mesma a realizar tais atividades com naturalidade. Essa caçada ao Bin Laden, na verdade, é uma guerra contra um homem só.

Mas Bigelow foge do maniqueísmo como Tom Hooper do bom senso, e a galera aqui não é um bando de torturadores malignos que tiram doces de crianças em seus momentos de folga: acompanhamos o esforço daquelas pessoas fazendo seu trabalho - esforço que, em caso de erro, pode resultar na morte de centenas de pessoas (como mostram os atentados) ou até mesmo de amigos (como na reunião com o médico). Até mesmo uma investida correta pode resultar em frustração: o número de dias que uma pista de Maya fica sem ser investigada por questões políticas, a tentativa de assassinato dela, os protestos, e por aí vai. Afinal, encontrar uma pessoa em um mundo enorme, uma pessoa que manja do riscado e sabe se esconder, é um trabalho descomunal.

Ainda que a quantidade absurda de informações não permita um maior aprofundamento nas personagens, é interessante ver alguns detalhes tipo Maya repetindo as falas de Dan, ou este desabafando que vai voltar para Washington porque precisa "fazer alguma coisa normal", ou até mesmo o momento em que Maya e Jessica quase são mortas em uma explosão de bomba durante um jantar, mostrando que lá a cobra fuma o tempo todo ("não coma fora, é perigoso", diz Maya a certa altura). O roteiro não se prende a convenções (ok, na maior parte) e prefere tratar as personagens como pessoas mesmo, que conversam sobre coisas rotineiras durante o trabalho, mesmo que o trabalho envolve alguma explosão ou tiroteio alucinado. Além disso, podemos ver situações que fazem jus ao "inteligência" na sigla da agência, como o momento onde descobrem que alguém está se escondendo em uma casa justamente pela ausência de rastros dessa pessoa lá ou o fato de que Maya usa uma peruca morena em alguns interrogatórios para não destoar tanto do interrogado e tentar estabelecer alguma identificação. Malandro esse pessoal da CIA.

Bigelow documenta tudo com a câmera na mão, em uma montagem agitada feito sábado à noite, mas sempre clara sobre o que está acontecendo (é um estilo documental que funciona bastante nesse tipo de produção). Junto com as ótimas fotografia e direção de arte (que passam uma atmosfera suja, árida, um clima de salão de festas no início da manhã após um churrasco de noite), a produção mantém um ritmo bastante enérgico (e essencial para as quase três horas de filme), tornando os acontecimentos em cena sempre interessantes. O ápice ocorre na invasão final: tensa a ponto de fazer uma disputa por pênaltis parecer um episódio dos Ursinhos Carinhosos, a sequência, que alterna entre a visão noturna em primeira pessoa dos soldados e a linguagem usada até ali, certamente desencadeará muitas gastrites nervosas na platéia. Completamente desprovida de trilha, essa cena é de uma intensidade assustadora - que provém não só da cena em si, mas também de tudo que sabemos daquela casa, prova de que houve uma cuidadosa construção do suspense (só a geografia da sequência que é meio confusa e poderia ser melhor estabelecida. Até entendo que geografia é chato, mas enfim, faz parte).

A Hora Mais Escura se beneficia ainda de um elenco homogêneo, que compõem suas personagens com carisma e eficiência apesar do pouco tempo de cena e da falta de aprofundamento (por exemplo, Jason Clarke consegue tornar Dan ao mesmo tempo amigável e ameaçador, sem recorrer a caricaturas). Mas quem carrega a balbúrdia mesmo é Jessica Chastain, que cresce junto com a sua personagem (reparem como a postura contida dela na primeira cena dá lugar a uma outra completamente desenvolta conforme ela ganha confiança, até mesmo desafiando superiores), tornando Maya obcecada com suas pistas e com o trabalho que tem pela frente - e a expressão de resignação que ela faz quando diz "eu não fiz mais nada" (uma daquelas belas frases de duplo sentido do cinema) é quase dolorosa. Chastain consegue trazer humanidade, ambiguidade, raiva ("vou detonar todos os envolvidos neste atentado") e determinação para a personagem, carregando a história com facilidade.

Trazendo diálogos épicos do tipo "Tragam gente para matarmos!", A Hora Mais Escura peca um pouco apenas por não se aprofundar mais nos dramas e histórias de suas personagens, tornando o arco dramático da protagonista um tanto superficial. Ainda assim, é uma obra poderosa, com um clímax envolvente e impacta o público sem piedade nenhuma. Uma granada em película, pode-se dizer. Porque, quer seja a tortura, os gastos, a violência ou a dúvida se tudo valeu a pena, A Hora Mais Escura levanta pontos importantes sem medo, contrariando seu título e abrindo um pouquinho de luz em cada assunto.

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