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Ginástica de hardware
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Breves comentários sobre os últimos livros que li....
Entendendo o Super Bowl
Quem tem medo do lobo mau?
Sobre um sorvete.
A problemática da porção.
O bronzeado
Quanto mais GTA V, menos queijo.

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O dia em que eu fui à Copa do Mundo
André - 19 junho 2014 - 15:36
O futebol visto ao vivo não é nada glamouroso. Sem os enquadramentos cinematográficos, a montagem ágil, a narração empolgada, a câmera lenta, os replays, os gráficos, as análises, tudo se resume a uma visão ampla do campo, longe dos supercloses que captam olhos marejados e da edição que confere drama às coreografias involuntárias. Ao vivo, o futebol é despido de quaisquer adornos carregados de significado e retorna a uma forma simples, rústica, onde precisa conquistar as pessoas apenas pelo impacto das jogadas e comportamento da torcida, sem intermediários cujo trabalho é tentar tornar a partida o mais envolvente possível. Ao vivo, o futebol deixa de ser espetáculo.

O inacreditável míssil disparado por Tim Cahill aos vinte e um minutos do primeiro tempo, tatuando o travessão e empatando a partida contra uma equipe mais forte e que havia recém marcado, foi algo fora do comum. Talvez porque fosse uma partida fora do comum, repleta de jogadores fora do comum, torcidas fora do comum, importância fora do comum. Os primeiros passos em um Beira-Rio dividido entre o laranja pulsante dos holandeses e o incompreensível sotaque dos autralianos já indicavam se tratar de um jogo à parte, composto por uma atmosfera que há vinte anos eu vejo na televisão mas que só ontem realmente descobri: é a Copa do Mundo (dispenso o "FIFA" no final) criando um universo que só é possível acessar de quatro em quatro anos, que não existe fora desses trinta dias enlouquecidos de futebol e que, para alguém que desejava mais do que tudo ter visto ao vivo o gol genial de Hagi contra a Colômbia, o chute de Branco contra a Holanda, a subida de Romário contra a Suécia, a arrancada de Michael Owen contra a Argentina, os passes cirúrgicos de Beckham e Scholes, o domínio perfeito de Bergkamp em cima de Ayala, o trenzinho de Felipão após superar Van Basten, o toque simples e brilhante de Pirlo para Grosso, a redenção de Materazzi, os pênaltis quase seguidos entre Espanha e Paraguai, a maior defesa de todos os tempos realizada por Suárez, a cavadinha vitoriosa de um El Loco que fez jus ao seu apelido e o chute mais importante da história da Espanha desferido por Iniesta, possui um significado de mais de vinte anos de "imagina se eu estivesse lá".

Quando Cahill bombardeou o gol holandês aos vinte e um minutos, dois australianos sentados atrás de mim pularam e gritaram e se abraçaram e nos abraçaram e desceram as arquibancadas correndo. O gol - talvez o mais bonito da Copa até aqui - foi marcado no lado da goleira onde eu estava sentado, e, mesmo a dezenas de metros de distância, vi ele muito mais de perto do que qualquer superclose de câmera poderia conseguir: vi ele das arquibancadas de uma Copa do Mundo, envolvido pelos gritos das torcidas, testemunhando a bola percorrer todo o caminho até sacudir as redes e mudar um país inteiro e, pela primeira vez na vida, sem precisar imaginar como seria estar ali. Porque ao vivo, quando deixa de ser espetáculo, é que o futebol se torna verdadeiramente espetacular.


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Ginástica de hardware
André - 19 maio 2014 - 00:11
Comprei um notebook há pouco mais de um ano com aquela fantasia de mobilidade, de que poderia sair com ele e sentar em alguma praça bonita com uma cerveja ao lado e escrever uma obra-prima, enquanto uma Melanie Laurent qualquer passa de boina e segundas intenções na minha frente. O notebook era a promessa de liberdade, o fim da ditadura de ter que ficar sentado em frente a uma mesa e olhando sempre para a mesma paisagem feita de gesso e pintura descascando.

Após a aquisição descobri que, no mundo do hardware, não há espaço para a praticidade. Certo, o equipamento é leve, eficiente, com dimensões compactas o suficientes para permitir sua realocação para basicamente qualquer lugar, mas essa expectativa de "a qualquer hora e em qualquer lugar" não leva em consideração a outra parte do hardware: o corpo. O corpo não é leve, não é eficiente e muito menos compacto, além de ser composto por um milhão de materiais diferentes que, se não forem colocados sob condições específicas de suporte, pressão, distensão e diagramação, insistem em doer.

Porque não existe realmente uma posição cem por cento ideal ou confortável para fazer uso do notebook. Deixar ele no colo parece ser a solução mais lógica, e até funciona por algum tempo, mas logo o esquadrão formigamento ataca e é preciso remanejar as pernas, aniquilando completamente a estabilidade do equipamento - e tentar digitar uma frase sequer sem estabilidade é um convite à insanidade. A cama surge como uma alternativa promissora, com seu colchão macio e suas lembranças das comoventes sonecas tiradas ali, só que não faz muito bem para a máquina e, se você deitar ao lado do dito-cujo, mantendo-se no primeiro estágio da posição "conchinha" (e sem a preocupação de não saber onde alocar o braço livre), perceberá após sete ou oito minutos que precisará de fisioterapia; se deitar e repousar o notebook em cima do peito, perceberá após sete ou oito segundos que precisará de uma massagem no pescoço.

Urge a necessidade de criarmos uma versão do Kama Sutra com notebooks, catalogar as posições confortáveis, prazerosas, relaxantes que podem ser realizadas para ter o equipamento ao alcance e totalmente operacional. Acredito que isso aumentará a produtividade de humanidade em cerca de todos os por cento, criando uma situação ideal onde podemos aproveitar ao máximo tudo que um equipamento poderoso nos oferece. Pois até aqui, depois de anos de experimentações, tentativas e frustrações, descobri que, amarga ironia, o melhor lugar para trabalhar com o notebook é em cima da mesa.
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Samson
André - 06 abril 2014 - 02:15
Ando bastante viciado nessa canção "Samson", da Regina Spektor. Não entendo muito de música, mas percebo ali uma harmonia incrível entre as notas do piano e a voz - não só a questão de estarem afinadas uma com a outra, mas algo um pouco além, como se tivessem sido concebidas ao mesmo tempo, algumas notas criadas pela voz e alguns vocais pelas teclas, como se fossem exatamente a mesma coisa expressa de formas diferentes.

Mas tem um momento ali, onde ela canta "stars came falling on our heads", que a voz da moça subitamente começa a ficar mais baixa, quase sussurrada, de uma cumplicidade comovente, e é nesse momento que eu sinto toda a doçura e intimidade envolvidos e consigo imaginar as luzes amarelas bruxuleando ao redor de lençóis improvisados, onde duas pessoas se submetem uma à outra em uma escolha que era impossível não fazer, enquanto lá fora as estrelas caem e os vulcões explodem e espadas e machados dançam por entre corpos de heróis e martires que jamais serão reconhecidos. Mas ali dentro tudo que importa é o que está ali e o que vai acontecer ali, como se o universo tivesse congelado naquele momento e tudo que existisse coubesse nessa canção onde uma voz doce e sensível canta sobre uma pausa momentânea do mundo e todos percebessem que talvez isso seja o máximo que se consegue e aceitassem que tudo bem, a vida não nos deve nada e qualquer momento de felicidade é tão importante quanto qualquer outro momento de felicidade..
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Breves comentários sobre os últimos livros que li.
André - 09 março 2014 - 16:25

As Entrevistas da Paris Review - Vários
Como toda boa coletânea, As Entrevistas da Paris Review tem altos e baixos. É extremamente divertido ver Hemingway admitindo que dera uma resposta estúpida mas apenas porque a pergunta também era estúpida, ou Faulkner descartando os escritores e dizendo que só a obra é importante, mas a entrevista com W. G. Auden passa batida e a verborragia de Ian McEwan fica entediante às vezes. No fim das contas, a melhor é a de Amón Oz, de quem curiosamente nunca li nada - tirando do páreo a entrevista com Borges, claro, que não posso avaliar porque ainda não descobri o que veio antes: Borges ou a escrita.


Vida Querida - Alice Munro
Esse é um dos poucos vencedores do Nobel de Literatura que li, o que indica como sou desqualificado para falar qualquer coisa sobre o assunto. É um livro que sempre mantém um nível alto, não tem nenhum conto ali que faça o leitor lamentar não ter investido o dinheiro em cerveja, e sempre com uma sensibilidade tocante - que atinge níveis lacrimejantes em Amundsen e O Olho, entre outros. Ainda assim, confesso que no panorama geral não tive uma sensação NOBELÍSTICA, o que me faz pensar que talvez tenha levado o prêmio pela regularidade de qualidade nos contos,  o que me faz pensar que o Nobel é um grande torneio de pontos corridos.

Agora Deus Vai te Pegar Lá Fora - Carlos Morais
Esse na real eu já tinha lido, mas ficou ainda melhor na releitura. É uma daquelas obras carismáticas ao extremo, que certamente seriam extremamente populares em um eventual colégio de livros. Engraçada sem apelar, envolvente sem apelar, com uma galeria de personagens incrivelmente criativa e uma melancolia doce que despeja sentimentos no coração do leitor, Agora Deus Vai Te Pegar Lá Fora é uma daquelas surpresas literárias às quais a gente se apega e quer levar junto para sempre.

Condenada - Chuck Palahniuk
Sou um grande fã do Chuck Palahniuk (embora sempre tenha que conferir o nome dele no Google antes de escrever), tenho Clube da Luta tatuado no meu CÉREBRO, admiro muito a subversão e a forma com que ele jamais julga as personagens, mas Condenada parece um esforço menor. É extremamente eficiente e uma plataforma perfeita para a imaginação cruel do CHUCKÃO, que consegue ser criativo mesmo em momentos mais óbvios (como o do telemarketing), mas ainda assim soa um pouco contido demais, derrapando no tradicional em alguns pontos (estamos falando do cara que escreveu o conto Guts, afinal). Além disso, a personagem parece espertinha demais e fala de forma espertinha demais para alguém com 13 anos. Vale a leitura, entretanto, especialmente se você quiser conhecer o maligno sistema de telemarketing.


A Ilusão da Alma: Biografia de uma Ideia Fixa - Eduardo Giannetti

Esse é um daqueles "livros que fazem pensar". A batalha de um sujeito tentando se desvencilhar da ideia de que seus pensamentos não são realmente seus, mas sim fruto de reações químicas, é envolvente e vai dar um nó no cérebro do leitor (mas um nó bom, não um nó no sentido "não tou entendendo nada aqui é melhor deixar o livro de lado e entupir o cérebro com álcool"). Uma jornada extremamente interessante e que vai te deixar pensando se o que você está pensando é realmente o que você está pensando.

Os Quatro Grandes - Agatha Christie
Mais uma daquelas grandes tramas de assassinato e mistério da tia Agatha, dessa vez envolvendo também uma grande conspiração. Sei que vou SECAR NA TOALHA, mas a capacidade da escritora de manipular as circunstâncias e levar a história até situações imprevisíveis é brilhante. Além disso, tem Hercule Poirot e o capitão Hastings, o que já é 90% da qualidade necessária para um livro.

Batman - O Que Aconteceu Ao Cavaleiro Das Trevas? - Neil Gaiman
Essa é uma daquelas histórias surpreendentes, com rompantes de criatividade e genialidade surgindo a todo momento. Mostra com dramaticidade e intensidade a relação das personagens de Gotham City com o homem-morcego, construindo, ao longo do caminho, revelações importantes sobre a personalidade do próprio Batman e a forma com que as pessoas o veem. E aquela sensibilidade no final da história é de sentar no cantinho e chorar.

A Dama do Cachorrinho - Tchekov
Tive uma experiência muito, digamos, de entender que nunca soube escrever após ler a coletânea de contos O Beijo, do Tchekov, esse russo cujo superpoder é visão de raio-x das almas das pessoas. Entretanto, esse A Dama do Cachorrinho não me deixou muito impressionado: alguns contos (como o que dá nome ao livro) realmente se destacam, mas outros, como A Morte do Funcionário e O Enxoval, me deixaram com uma expressão meio "é, tudo bem" no rosto. Queremos mais Enfermaria Nº6, galera. Mais Enfermaria Nº 6.

Um Estudo em Vermelho - Sir Arthur Conan Doyle
Após ficar completamente em chamas com a série Sherlock, decidi revisitar o mundo literário de Sir Arthur Conan Doyle. E Um Estudo em Vermelho funciona muito bem como apresentação de personagens e trama de mistério, tornando o processo investigativo sempre interessante por causa daquele lance onde o Sherlock pega umas coisas totalmente nada a ver e desenterra alguma conexão brilhante com o crime. O revés fica por conta dos cinco primeiros capítulos da parte 2: ainda que bem escritos pacas, sua importância para a história é questionável e o único sentido de sua existência parece a encheção de linguiça. Não chega a atrapalhar, apesar de ser um "mas o que diabos...?" de Wikipédia.

O Lobo do Mar - Jack London
Uma poderosa narrativa envolvendo náufragos, navios, pancadaria e palavras legais como "estibordo". A atmosfera tensa da escuna Ghost, tomada de personagens peculiares e de um comportamento quase primitivo, atinge seu ápice no capitão Wolf Larsen: extremamente violento, impiedoso e materialista, ele é também um filósofo da condição humana, refletindo a respeito das escolhas possíveis e optando pelo caminho do tocar o terror em todo mundo alucinadamente porque é o que mais se assemelha à nossa existência animal. Os diálogos entre ele e van Weyden são sempre interessantes, e acabam elevando  O Lobo do Mar para outro nível.

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Entendendo o Super Bowl
André - 01 fevereiro 2014 - 18:27
O que é o futebol americano?
É como aquele momento onde um grupo de pessoas percebe um ladrão correndo e se atira em cima do cara para impedir que fuja, mas com patrocinadores. O esporte consiste em dois times - geralmente compostos por híbridos entre seres humanos/whey protein - se empurrando até que alguém faça a bola (que não é uma bola) cruzar uma linha a um monte de jardas de distância. Tal qual acontece com solteiros, os jogadores só usam a mão para atingir seus objetivos - qualquer um pode participar de qualquer jogada, entretanto, desde que tenha mais de cem quilos.

Se só pode usar a mão, por que chamam de "futebol"?
Não sei. Eles também medem a distância em jardas, então imagino que seja simplesmente dislexia (há um tal de field goal onde é permitido bicar a bola (que não é uma bola), mas vamos lá, é uma solução paliativa).

Quem vai jogar no Super Bowl desse ano?
Denver Broncos e Seattle Seahawks (sim, os times da NFL são nomeados de acordo com nenhum critério). Há um grande bafafá porque são os dois primeiros estados a legalizarem o uso da maconha para fins recreativos - isso significa que seu amigo maconheiro vai incorporar "a planta possui propriedades que incrementam o desenvolvimento do esporte" ao seu discurso pró-erva.

Quais são os destaques de cada time?
No lado do Denver Broncos o destaque é o quarterback Peyton Manning, que superou diversas situações difíceis ao longo da carreira, como uma operação no pescoço e no braço em 2011 e o fato de que quase tem o nome de uma parte do corpo humano. O destaque de Seattle eu não sei. Eddie Vedder...?

O que é um quarterback?
Em linhas gerais, quarterback é o jogador que atira a bola o mais pra frente possível. É a glamourização do zagueiro limitado.

Quem vai tocar no intervalo?
Bruno Mars. E os Red Hot Chilli Peppers também. Que só devem ter marcado presença por causa do lance da maconha.

Quanto tempo dura?
São quatro tempos de quinze minutos. Mas o jogo para a todo momento para os técnicos revisarem estratégias e fingirem que existe ciência e matemática naquele desembarque da Normandia em campo, então a janela de duração vai de algumas horas até a próxima fragmentação dos continentes do planeta.

Como é a contagem de pontos?
Bem, o touchdown vale seis pontos, com a possibilidade de um ponto extra na tentativa de chute ou dois pontos em uma nova tentativa de cruzar a linha. E o field goal vale três pontos, e não um, porque sim. E um tal de safety vale dois. Ou seja, ninguém sabe, e é bem possível que a posição dos astros influencie na contagem. Por via das duvidas, comemore só quando a bola cruzar a linha.

Ok, existe algum motivo para assistir ao Super Bowl?
Sim: cheerleaders.


Não é futebol americano. Mas alguém realmente se importa?
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Quem tem medo do lobo mau?
André - 26 janeiro 2014 - 21:36

O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street)
5/5

Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Terence Winter, adaptado do livro de Jordan Belfort

Elenco
Leonardo DiCaprio (Jordan Belfort)
Jonah Hill (Donnie Azoff)
Margot Robbie (Naomi Lapaglia)
Matthew McConaughey (Mark Hanna)

Nos anos 80, quando Wall Street era uma terra de charme, dinheiro e cocaína, Jordan Belfort se junta aos corretores do distrito financeiro mais famoso do mundo. Logo ele começa a ter sucesso, usar drogas, transformar o escritório em um pardieiro e, basicamente, viver a vida da forma mais ensandecida possível.

Não fosse a troca para a tecnologia digital, qualquer pessoa poderia achar que o copião de O Lobo de Wall Street foi revelado em uma latinha de energético: o filme é intenso, forte, rápido, divertido, engraçado e completamente empolgante. É, assim como Cassino (também dirigido por Scorsese), uma história de crescimento financeiro baseado em atividades no limbo entre o legal e o ilegal - só que a nova película troca a violência pela loucura da riqueza, consumismo e luxúria. De certa forma, imagino que O Lobo de Wall Street seja o equivalente fílmico a cheirar cocaína, o que faz sentido, visto que esta é um elemento importante da película.

Assim como anões.

Para isso, Martin Scorsese cria uma atmosfera enlouquecida não só na mise-en-scène - onde tudo é intenso e gritado e gestual e acaba de alguma forma com mulheres nuas -, mas também na forma, com a montagem ágil e a câmera constantemente em movimento (naqueles travellings elegantes que o Scorsese sabe fazer muito bem). É uma construção assaz inspirada, que se aproveita da quebra da quarta parede, câmera lenta, tela congelada e flashbacks rápidos (o do carro e o do avião, por exemplo) para tornar a coisa toda mais dinâmica - claro, o diretor usa esses recursos com parcimônia, sem exagero, para não tirar a atenção do que está acontecendo em quadro. É importante que a forma reforce a atmosfera da cena, e não chame a atenção para si mesma (imaginem um filme desses dirigido por Guy Ritchie e vocês terão uma ideia).

E é uma decisão mais do que acertada para companhar a trajetória de Jordan Belfort, que, com frases do tipo "e eu fiquei puto da cara porque era menos de um milhão por semana", personifica toda a loucura que sempre se imaginou de Wall Street. Claro, o roteiro faz questão de mostrar o quanto ele é dedicado, competente (a cena onde todos param para ver ele trabalhar) e patologicamente apaixonado pelo que faz (as conversas por telefone onde ele fica gesticulando para o interlocutor), transformando-se em uma pessoa arrogante o suficiente para achar que pode subornar dois agentes federais - um comportamento que divide com Donnie, mais um tresloucado repleto de falas épicas ("quer cheirar carreiras de fermento, é isso?") e que ajuda Jordan a transformar a Stratton Oakmont no pardieiro definitivo. Percebam que as características dos dois são tão fortes que, a partir de certo momento, aceitamos toda a balbúrdia da empresa como algo natural. A megalomania da dupla, regada a muita cocaína e quaaludes, é ilustrada de forma brilhante por situações completamente absurdas e que, muitas vezes, humilham a palavra "épico" (aquela cena envolvendo os quaaludes poderosos sem dúvida constará de qualquer lista de melhores momentos em 2014. E recém estamos em janeiro).

Além disso, a narração em off é bem utilizada para explicar e avançar a história sem jamais ser excessivamente didática, o que acaba a tornando mais um dos elementos divertidos do filme ("é como tomar sol antes dele aparecer"). Mas o problema é que, no meio dessa diversão total e absoluta, não há muito espaço para caracterizar as personagens: praticamente todas falam do mesmo jeito e reagem do mesmo jeito e buscam a mesma coisa. Ok, dá para entender isso como uma generalização ao espírito de Wall Strett, uma declarção de que todos ali eram fora da casinha, mas isso diminui o envolvimento com qualquer situação mais pessoal (o drama de Jordan no final, por exemplo). Aliás, há uma tentativa de arco dramático extremamente desnecessária, colocando o protagonista inicialmente como alguém buscando trabalhar de forma honesta: a caracterização inicial, "do bem", e tão rápida e superficial que jamais gera impacto, tornando frases como "você virou uma pessoa completamente diferente" soam deslocadas feito a canela do Anderson Silva.

Já o elenco surge completamente em chamas, terraplanando tudo e todos à sua frente com atuações poderosas. Começa com Matthew McConaughey (o grande "como assim?!" de 2013) construindo um Hanna gestual e amalucado - mas repleto de carisma - e continua com Jonah Hill, que encarna Donnie com a intensidade de um gordinho tentando se vingar de tudo que os gordinhos sofraram na infância, criando sequências memoráveis (como a do peixe) e utilizando sua habilidade ímpar de xingar para tornar tudo ainda mais megalomaníaco (além de usar trejeitos um pouco mais femininos, denunciando a dubiedade da sexualidade do sujeito). E se Margot Robbie consegue encantar com seus olhares e sorrisos e beleza (certamente a atriz foi feita no Photoshop e criada usando uma impressora 3D), Leonardo DiCaprio tem a grande atuação de sua carreira, transformando Jordam em uma força da natureza, a energia em forma de pessoa, sempre falando alto, sempre tendo certeza de sua posição e sempre doando 100% de tudo que tem (um contraste interessante com o Jordan mais jovem, que chega para conversar com Hanna falando de forma bem mais tranquila e baixa). O ator ainda tem certa dificuldade de se perder na personagem, especialmente nos momentos mais íntimos, mas é seguro dizer que carrega O Lobo de Wall Street de forma épica.

Enquanto isso, a parte técnica pode se comportar de forma tão megalomaníaca quanto Jordan, pois atinge níveis definitivos de qualidade - e é uma pena que os efeitos especiais do filme, completamente "escondidos", talvez jamais tenham o reconhecimento que merecem. E boa parte da função deles é em prol da direção de arte, que se encarrega de mostrar os exageros daquele mundo, com cenários sempre grandiosos e luxuosos, decorados quase como palácios, ao mesmo tempo em que transforma o escritório em um ambiente despojado ao variar os tipos de terno e colocar alguns figurantes sem o paletó (e é interessante perceber que, quando era "honesto", Jordan vestia um terno cinza claro, ao passo que depois que a "sujeira" começa as cores ficam escuras). Como se não fosse o suficiente, a trilha inspirada consegue marcar o ritmo da brincadeira e ainda atuar de forma simbólica (por exemplo, os versos de Everlong "if anything could ever feel this real forever") são ouvidos logo antes da vaca ir pro brejo.

Assim, O Lobo de Wall Street é uma grande e frenética vitória por parte de seus realizadores. Scorsese tira de letra a dificuldade de filmar exageros sem soar caricatural ou destoante, e isso em uma história cujo protagonista leva uma vida tão intensa que é capaz de dormir pilotando um helicóptero. Repleta de grandes sacadas, cenas inesquecíveis e Margot Robbie pelada, a produção é mais um acerto para a carreira do diretor, cujo talento e capacidade continuam tinindo. Em determinado momento, Hanna fala que ninguém sabe nada de como as ações vão se comporta na bolsa de valores, mas uma coisa é certa: apostar em Scorsese é garantia de retorno.

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Sobre um sorvete.
André - 20 janeiro 2014 - 23:34
Eu nunca tinha reparado, mas colocar em um pote bolas de sorvete de sabores diferentes pode ser um fardo. Quer dizer, como se come um sorvete com essa configuração? Tipo, se for de chocolate e creme, existe alguma etiqueta sobre qual é o primeiro sabor a ser devorado? Devo dar preferência ao chocolate, porque ele parece ser a grande força dos doces mundo afora, o blockbuster dos sorvetes? Ou começo pelo de creme, assumindo uma postura mais alternativa e mostrando que não, eu não vou me render ao monopólio chocolateiro? Será que devo ir alternando, buscando na sobremesa um equilíbrio simbólico para o paradoxo da condição humana, onde tentamos ser todos diferentes mas iguais de certa forma? Mas nesse caso não pode acontecer que o chocolate, com uma base sólida formada por grandes corporações e anos de lavagem cerebral através de sua imposição em todas as sobremesas, consiga impor seu gosto sobre o outro? Ou o de creme ter cuidadosamente planejado essa imagem alternativa, essa abordagem desprendida do mainstream, justamente para usar gente como eu como massa de manobra em uma longa estratégia para sobrepujar o chocolate? Seria o de chocolate autêntico por incentivar o hedonismo com seu sabor inesquecível? Ou o de creme, claramente em desvantagem frente ao paladar, é uma lembrança de que os sabores verdadeiros da vida nunca te satisfazem completamente, deixando sempre uma abertura para percebermos que não existe perfeição entre o céu e a Terra? E seria eu, o agente de todas essas possibilidades, eternamente dividido entre chocolate e creme? Parte de mim deseja a fuga açucarada e a sobrecarga dos sentidos, enquanto a outra parte busca entender que a felicidade incompleta é o único caminho para a compreensão das nossas lutas e da nossa existência?

E será que eu, frente a tantas reflexões, deveria ter compreendido que, dadas as circunstâncias climáticas e as propriedades físicas do objeto, a merda do sorvete ia derreter enquanto eu ficava filosofando?
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A problemática da porção.
André - 17 janeiro 2014 - 00:14
Bares, restaurantes e outros recintos culinários mundo afora se aproveitam do fato de que, nessa realidade de temperos e acompanhamentos, há só uma unidade métrica para a quantidade de comida no prato: a porção. E ela está sempre presente. No happy hour, na janta, na entrada, na saída, no "beliscar alguma coisa". O prato principal é o líder, é por ele que praticamos o capitalismo desenfreado, mas o dito-cujo é sempre seguido cegamente por diversas porções - arroz, pão, batata-frita -, que, juntas ou separadas, estão sempre gravitando em torno do prato principal (que provavelmente tem medo de ficar sozinho. É a versão alimentícia de uma tia tomando uísque com Red Bull).

O grande problema, claro, é que ninguém sabe exatamente quanto é uma porção. Não existe uma medida pré-definida. Tal qual a arte e os horários de ônibus em Porto Alegre, a porção é subjetiva. É uma unidade de medida que significa uma coisa para cada pessoa, depende do que essa pessoa acredita, existindo assim em um plano puramente espiritual e desprovido de evidências materiais - basicamente, é uma questão de fé (talvez a porção tenha surgido na repartição do pão na última ceia. Reflitam). O engajamento da sociedade em tal métrica inexistente é tão demente que inventaram até a meia porção, uma metade de algo que não se sabe o que é, cinquenta por cento do infinito, como alguém que dá direções dizendo "ah, claro, sim, isso fica logo ali passando o exato centro geográfico do universo".

A conclusão inevitável é que a porção falha miseravelmente em sua empreitada métrica, servindo apenas como ornamento para as expressões pessoais que vão realmente definir o quanto foi servido ("é bem servido", "vem pouco", "dá pra duas pessoas", "é tipo uma rave pra gordos"). Ainda existem aqueles que tentam encontrar alguma luz nessa escuridão, mas, data a já comentada subjetividade de coisa, acho que podemos aplicar aqui a lógica do copo: se a pessoa acha que uma porção é pouco, é pessimista; se acha que é bastante, é otimista.
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O bronzeado
André - 27 dezembro 2013 - 01:49
Sou uma pessoa de pele branca. Tipo, bem branca. Já pediram minhas fotos 3x4 pra usar na escala Pantone, assim. Mas não é só questão dos genes monocromáticos, que buscaram dentro das bilhões de combinações possívels entre células e DNAs a exata combinação para criar uma configuração definida pela embaraçosa expressão "pele sensível": alem do revés genético, tenho a tendência a encarar calor e situações envolvendo sol demais e ar-condicionado de menos como vilões da Disney - por exemplo, idas à praia só acontecem quando envolvem futebol ou cerveja com amigos. Sim, eu vejo o litoral da Tailândia como um grande campo de futebol e o arquipélago do Havaí como um conjunto de bares.

Como vocês podem imaginar, sou vítima de diversas provocações por não estar adequado à cor de maior status social (que parece ser algo entre um leve laranja e ouro azteca). Alguns conhecidos já disseram que eu pareço uma folha de papel, alguns conhecidos designers já me disseram que eu pareço um #ffffff. Nada traumático ou que tenha causado grandes problemas na minha vida, exceto pela vez em que meus amigos não me deixavam comprar nada no Rio de Janeiro porque achavam que as pessoas iam me ver como um estrangeiro (e cobrar mais pelos produtos, claro. A primeira providência a ser tomada diante de um estrangeiro é cobrar mais), algo certamente contraprodutivo, mas sem grandes danos. É só uma questão que surge de vez em quando, e eu mesmo branco, digo, brinco com isso quando surge a oportunidade, já que humor auto-depreciativo é tudo que as mulheres querem em um homem.

Mas tava pensando aqui. Em uma sociedade tão interessada na produtividade, que julga as pessoas pelos seus feitos, seus empregos, seus salários, uma sociedade onde as pessoas postam no instagram fotos exaltando o trabalho árduo de empurrar uma máquina por três séries de doze repetições, uma sociedade que olha com desdém para o ócio e não hesita em condenar aqueles que cometeram o crime inafiançável de não fazer nada, prontamente taxando essa galera de "preguiçosos" e colocando ela à margem do resto (que Deus me livre nunca foi e jamais será assim), as pessoas estão se gabando de terem deitado debaixo do sol por horas a fio?
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Quanto mais GTA V, menos queijo.
André - 16 dezembro 2013 - 19:56
Joguei GTA V para o Xbox 360 e gostei. É divertido na maior parte do tempo, tem ótimos diálogos, missões alucinadas e momentos engraçados. A história é bem forçada, mas ok, não esperava nenhum Aaron Sorkin ou Charlie Kaufman ou qualquer Oscar de roteiro do gênero, e algumas partes expõem claramente que foram boladas nas horas extras de uma madrugada de sábado para domingo (a de fazer ioga e a de dirigir a família até o psiquiatra, especialmente).

Assim, apesar de ter curtido pacas a jornada, não sou daqueles que pegam a caixinha do jogo e saem por aí bradando que GTA V é a resposta a todas as nossas preces. Na verdade, analisando algumas opiniões e reviews, percebi que boa parte da veneração em torno dessa liberação videogamística do ID vem pelas coisas que o jogador pode fazer: ele pode jogar tênis, pode pular de páraquedas, pode dirigir um avião ou um helicóptero, pode fazer ioga, pode escolher entre fazer a missão de forma mais discreta ou chamando no Duro de Matar, enfim, ele pode. Mas a coisa parece ficar por aí, no fato de que é possível. Ninguém comenta se em GTA V é legal jogar tênis (é chato), pular de páraquedas (é legal), dirigir um avião ou helicóptero (chato), fazer ioga (chato) ou se as opções alternativas de realizar as missões são divertidas (o modo Duro de Matar normalmente é divertido, o modo discreto normalmente é chato).

Logo abandonei a exploração do tal mundo aberto e me foquei nas missões principais, essas sim trazendo momentos épicos de motos pulando em cima de trens, prédios do FBI sendo invadidos, rapel, tiroteio desenfreado e outras situações das quais John McLane poderia participar. Ali que toda a diversão se concentrava, e o ato virtual de pular com uma moto virtual em cima de um trem virtual era realmente épico, ao contrário de apenas soar épico quando alguém fala que o jogo permite que o cara pule de moto em cima de um trem.

Ou seja, aquilo era o GTA V (ao menos pra mim). E, como cada uma dessas missões que soa bem na conversa e mal no controle ocupa espaço que poderia ser usado para as partes legais, e no geral todos as definem como o grande diferencial e a grande atração do jogo, acho que aqui podemos aplicar a lógica do queijo suíço: quanto mais GTA, mais aulas de ioga virtual e derivados; quanto mais aulas de ioga virtual e derivados, menos GTA; assim, quanto mais GTA, menos GTA.

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Sushi não faz sentido
André - 17 novembro 2013 - 19:14
Toda vez que alguém comenta que comeu/está comendo/vai comer sushi, eu lembro de um filme que assisti em uma aula do colégio, "A Guerra do Fogo", onde uma tribo precisa enfrenta diversas intempéries para conseguir uma nova tocha depois que a sua apagou, já que eles não manjam de fazer o fogo e tal. E não é a determinação que leva eles a superarem as coisas, mas sim o instinto de sobrevivência, já que o fogo afasta predadores, aquece, ilumina e, além disso tudo, torna os alimentos infinitamente mais saudáveis e saborosos. Foi o fogo que possibilitou invenções humanas essenciais à vida, como o canelone.

Milhares de anos depois, as pessoas desdenham de todas essas conquistas e resolvem comer carne crua. Vê se pode.
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O favor que a Sony fez ao Brasil.
André - 04 novembro 2013 - 21:16
Há um tempinho, a Sony chegou no Brasil com o seu terno Armani e dentes de ouro e anunciou, para o infortúnio de milhões de, abre aspas, gamers, fecha aspas (porque gamers não é a mesma coisa que jogadores. Gamers é descolado. É maroto. É passível de ser vendido em camisetas e adesivos) que o seu Playstation 4 custaria R$ 3.999 na terra do futebol e da garrafada d'água no Justin Bieber. Claro que a galera chiou e protestos foram organizados e hashtags foram criadas e a Sony, ciente da incapacidade canarinho de resistir ao consumismo por mais que o produto custe uma faculdade, manteve o preço e divulgou uma equação matemática dizendo que infelizmente eles estão de mãos atadas, que a culpa é dos impostos, das estradas, dos custos, que e é isso aí, que estão fazendo o melhor, que são as vítimas e que bola pra frente.

Entretanto, o que à primeira vista parece um movimento onde a Sony baixa as calças do usuário e passa vaselina e toma quinze viagras se mostra na verdade um panfleto que é basicamente um passo a passo de como a vaca vai pro brejo. Pensem a respeito. O valor do videogame é ridículo, e não digo aqui ridículo como um sinônimo estranho/hipérbole de caro, mas sim ridículo no sentido de patético mesmo, quase engraçado (dá até pra imaginar uma fictícia cena de um fictício Corra Que a Polícia Vem Aí onde o saudoso Frank Drebin vai comprar um videogame, descobre que ele custa quatro mil e pergunta "Quatro mil? Mas por que é tão caro?" e o cara responde "Porque tem um 4 no nome ao invés de um 3"). A taxação em cima do produto é claramente e desproporcionalmente exagerada. Os custos de distribuição, graças à ausência de um Velho Oeste tupiniquim que inevitavelmente obrigaria a construção de ferrovias, exibem uma logística intrincada para algo simples, característica bem típica das personagens de comédias pastelão. A cara de pau da Sony em ter a cara de pau de fazer uma explicação bastante questionável enquanto embolsa uma margem morbidamente obesa, claramente não dando a mínima para o que quer que seja, é a cereja nesse bolo de desvirtualização total. A coisa toda é tão absurda que olhos mais desatentos poderiam pensar se tratar de uma sátira.

Mas claro, nada de sátiras, a Sony está tão séria quanto possível e os consumidores também (deve ser o maior número de gente séria quando do anúncio de algo divertido da história). Afinal, estamos falando de mercado, de salários, de status, de poder de aquisição, de justo e injusto, e não dá para encarar todas essas coisas importantíssimas como um jogo - perdão, um game.
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A quantitatividade toma conta da cidade.
André - 16 outubro 2013 - 23:41
Acredito que esse tópico já tenha sido abordado e ilustrado com metáforas metidas a engraçadinhas aqui no blog, mas a situação parece que perdeu o controle, tipo, é situação agora é uma caminhonete sem freios e com a barra de direção quebrada e com Kaiser Chiefs tocando no rádio, e parece imperativo erguer uma bandeira com os dizeres "não mais". Porque ando com a sensação de que tudo, até as coisas mais subjetivas e abstratas, precisam ser justificadas através de números - um vídeo de timelapse não é bonito ou sensacional, ele é um vídeo que foi feito com mais de cinco mil fotos e cinquenta horas de pós produção em três semanas; um mochilão nunca é uma experiência envolvente por novas culturas, é uma viagem que percorreu nove cidades em três países em um período de vinte dias; uma festa grandiosa não é uma festa grandiosa pelo que acontece, mas pelo número de chopes consumidos e de garrafas vazias que podem ser contadas, empilhadas e fotografadas para que uma postagem no Facebook informe a todos os números da festa.

Não que essas informações não possam ou não devam ser divulgadas, o objetivo aqui não é incitar uma multidão furiosa com tochas às casas de matemáticos do mundo inteiro. Apenas refletir se essa obsessão por estatísticas não mostra uma visão de mundo limitada, ou, pior, uma necessidade tão grande de não estar errado que qualquer dubiedade tem sua bunda prontamente chutada pela linguagem matemática - se eu jogo os números ali, estou garantindo a minha posição frente a quaisquer questionamentos de que o vídeo não é sensacional ou a viagem não foi tão intensa ou a festa não foi tão épica. É a resposta fácil, preguiçosa, o relatório de resultados da firma invadindo as vidas pessoais e transformando o cotidiano em corporativo.

Ou, como Calvin e Haroldo colocaram a questão (de forma muito superior):

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A cidade que nunca dorme.
André - 18 setembro 2013 - 20:31
Acho que é bem comum os sonhos serem associados a alguma atmosfera meio lírica e sobrenatural, sabe, aquelas coisas de voo, céu, animais que não existem, leis da física sofrendo bullying, situações impossíveis e esse tipo de coisa, e esses são sempre os aspectos mais discutidos a respeito. Entretanto, nestas vinte e nova trôpegas voltas que dei ao redor do sol até hoje, percebi que a grande sacada dos sonhos é potencializar sensações aparentemente comuns: a paisagem é sempre impressionante, as luzes das ruas têm aquele brilho cinematográfico, os prédios e casas e lojas e construções ganham personalidade, o tempo é ideal mesmo quando chove, o espaço ao redor sempre possui algo novo, todas as situações que se apresentam são eletrizantes e empolgantes e até as mais humildes trazem junto uma atmosfera de aventura constante, as pessoas existem naquele estado alucinado onde tudo que acontece é grandioso e envolvente, e, mais do que isso, a identificação com elas acontece de forma fluída e cativante e a compreensão mútua é quase utópica, como se elas fossem parte de nós (e são).

Assim, não tenho escolha a não ser rejeitar a frase "a cidade que nunca dorme". Porque, por tudo que me vez viver e sentir e experimentar, compreendo que a cidade de Nova Iorque exista eternamente enquanto um sonho.
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