Um dia qualquer desse inverno cinzento fui até o SINE resolver situações envolvendo o seguro-desemprego (uma expressão que me incomoda, devo admitir: as expressões "desemprego" e "seguro" me parecem heterogêneas, misturando-se com tanta naturalidade quanto "ônibus" e "pontualidade". Mas divago), o tipo de empreitada que costuma consumir tempo e paciência em proporções generosas.
Ao chegar lá, logo percebi sinais daquela característica intrínseca aos brasileiros que alguns estudiosos gostam de denominar "fila". Entretanto, não havia ninguém ali para organizar a dita-cuja - havia apenas uma nada sorridente funcionária distribuindo senhas enquanto o tédio estuprava seu rosto. Ou seja, a fila formou-se sozinha. Uma entidade independente, construída por pessoas de diferentes valores e que, em nenhum momento, ficou maior do que o espaço permitia. Isso mesmo. Sem absolutamente nada que a orientasse, a fila respeitou a diagramação espacial do lugar de uma forma irrepreensível. Sabem aqueles vídeos do Discovery que mostram centenas de peixes nadando entre si em um espaço não maior do que um prato, sem que nenhum LAMBARI acerte o outro? Foi mais ou menos o que aconteceu no SINE.
O brasileiro já nasce com a habilidade de se adaptar a um ambiente onde essa configuração sequencial é necessária. Está no seu DNA. Ou seja, não somos o país do futebol, nem do carnaval: somos o país da espera - da espera nas filas de shows, de bancos, de instituições de ensino, de tribunais, de hospitais. E de "país da espera" pra "país do futuro", tudo que precisa é um bom insight.
Tava pensando em fazer um post sobre o processo de racismo pra cima do tal Danilo Gentilli, mas no meio do caminho me liguei que não sei mais qual é exatamente o significado da palavra "racismo" - o que antes parecia se referir à uma discriminação por cor, credo, sexualidade, gostar ou não de Transformers 2 e coisas do gênero, agora soa mais como "oportunidade para o poder público fingir que se importa com as minorias do país e, principalmente, com o politicamente correto, porque sua imagem é o bem a ser preservado".
Imagino que a prioridade do Ministério Público deve ser mesmo a de vasculhar Twitters alheios para descobrir se alguma celebridade disse algo que pode ser condenado. De certa forma, é como se o governo tivesse sua própria Contigo. Prevejo eventualmente alguma confusão entre MP, paparazzis e Luana Piovani.
Se o processo não for por racismo, e sim porque a piada é tão ruim que até um estudante de Direito conseguiria ser mais engraçado, desconsiderem este post. Nesse caso, não apenas concordo com o processo como apoio totalmente a pena de dez anos no Zorra Total.
Roteiro: Ronan Bennet, Michael Mann e Ann Biderman, baseados em livro de Bryan Burrough
Elenco
Johnny Depp (John Dillinger)
Christian Bale (Melvis Purvis)
Marion Cottilard (Billie Frechete)
Billy Crudup (J. Edgar Hoover)
Na década de 30 (conhecida como pós-crash ou pré-guerra),John Dillinger é um cara bacana, educado, informado, que se preocupa com o público e, apenas por acaso, rouba bancos e atira em pessoas. Então J. Edgar. Hoover, por não gostar de pessoas bacanas, educadas, informadas e que se preocupam com o público, chama o BATMAN pra caçar o sujeito.
O fato de se voltar contra os bancos e não tirar dinheiro das pessoas comuns, em uma situação onde a quebra da bolsa fez a imagem das instituições financeiras mais ou menos como a do Bush Jr. hoje em dia, deu a John Dillinger uma imagem um tanto heróica. Some isso ao fato de que é fácil o espectador torcer pelo bandido num filme e a personagem é interpretada por Johnny Depp, e pronto, já temos a conexão público-protagonista eficientemente armada.
O que é uma coisa boa. Com duas horas e dez minutos de duração, Inimigos Públicos não consegue construir de forma suficiente a imagem de John Dillinger. Existem cenas que dão pistas e deixam marcadas algumas características do sujeito, mas o romance dele com Billie, por exemplo, parece algo mais imposto pelo roteiro do que justificado por atitudes. Ainda assim, Johnny Depp consegue trazer toda a confiança e perspicácia necessárias para alguém do quilate do bandido - prova disso é quando, ao ser entrevistado por diversas câmeras, ele consegue virar o jogo e tornar-se o centro das atenções de forma positiva, apenas com alguns trejeitos e olhares. Com menos tempo em cena, o resto do elenco cumpre seu papel ao tornar interessantes personagens que, durante boa parte da projeção, limitam-se a mover a história para a frente.
Mas se o roteiro carece de alguns chuleios e arremates, o mesmo não pode se dizer do visual: com a câmera na mão e sempre sacolejando feito um avião em "área de instabilidade climática", o diretor Michael Mann busca a urgência de John Dillinger, cuja existência era permeada por uma atmosfera de constante movimento. Fotografa a Chicago dos anos 30 com uma beleza única, principalmente nas cenas noturnas, onde as sombras crescem e tornam-se parte da paisagem (destaque para o tiroteio no bosque, onde a iluminação vem praticamente só do fogo das armas. Me senti compelido a aplaudir de pé e mandar uma carta ao Louvre sugerindo que coloquem essa cena num quadro e a pendurem por lá). E é impressionante a preocupação do diretor com detalhes, chegando a captar o brilho no olho de Billie em uma conversa com John.
Beneficiado pelo AFINCO da equipe nas questões técnicas (fotografia, desing de som, desing de produção, entre outras que fariam vocês me xingarem de fresco se eu citasse), no geral Inimigos Públicos torna-se um excelente filme, embora tenha faltado Danoninho para construir uma história mais coesa e cativante. Infelizmente, não foi dessa vez que eu pude usar os trocadilhos "acertou em cheio" nem "o tiro saiu pela culatra". Paciência. Outras histórias de gângsters virão.
Naquela que talvez é a punição mais irrelevante da história dos esportes, a Major League Soccer decidiu multar David Beckham em mil dólares por desafiar alguns fãs do L.A. Galaxy para uma briga, durante jogo da semana passada.
Pra registro, mil dólares pra David Beckham é como catorze centavos para o resto dos jogadores do seu time.
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Tradução minha e livre dessa matéria aqui. Beckham deve estar aliviado que a coisa ficou apenas no plano das palavras - se ele e o torcedor tivessem ido às vias de fato, parece que a MLS ia punir o inglês dando a ele um carro novo.
Cedo de manhã, enquanto o ar condicionado da cidade de Porto Alegre ainda estava ligado na temperatura "Aspen", tomei o caminho até o centro para visitar uma repartição pública - e esta, como sempre, abrigava mais pessoas do que a torcida adversária em um Grenal.
Enquanto aguardava durante alguns cento e vinte minutos no local, astutamente percebi que os funcionários dos guichês pegavam panos embebidos a álcool para limpar suas mesas, canetas e outros objetos que fossem utilizados pelos clientes. Faziam isso toda vez que acabava o atendimento e outra pessoa se dirigia ao guichê. Certamente uma orientação graças à nova gripe, que vai se espalhando e já atacou violentamente dezenas de jornais pelo país.
No entanto, é de se questionar: em uma sala cheia de pessoas, todas tossindo, espirrando, respirando o mesmo ar, fazendo algazarra e mais sei lá o que, a ação tomada para evitar o contágio da gripe é limpar mesinhas com paninhos vermelhos?
É como se houvesse um incêndio colossal em uma fábrica com milhares de trabalhadores e os bombeiros mandassem pra lá apenas um sujeito com um tubinho de Hipogloss.
A quem interessar possa: foi lançada ontem, e obviamente também vazada na internet ontem, a canção The Fixer, single do próximo disco do Pearl Jam (Backspacer é o nome do dito-cujo).
A música até é bem legal e tudo mais, e eu certamente pagaria uma cerveja pra ela. Mas parece que a distorçãozinha de guitarras usada em praticamente todo o disco Riot Act (2002) tornou-se um parasita da banda, pois manteve-se abraçada ao pescoço dos caras durante o álbum seguinte (Pearl Jam, 2006) e agora permeia The Fixer de cabo a rabo.
Essa produção propositalmente "alternativa" (se considerarmos "alternativa" como sinônimo de "meia-boca", claro) simplesmente arranca qualquer clima que a música poderia construir e joga dentro de um poço. É uma canção boa de ouvir, original e até mesmo criativa, mas não sei, falta algo. Parece pouco demais pra segurar a expectativa de um novo lançamento do Pearl Jam.
Ele Não Está Tão a Fim de Você - 3/5 De uns tempos pra cá, parece que as comédias românticas engrenaram um pouco, colocando momentos realmente engraçados no meio daquele panelão de clichês que costuma entrar em cena. Ele Não Está... faz parte dessa leva: embora jogue tendo na zaga aqueles momentos que fazem as mulheres suspirarem nos cinemas porque ainda não encontraram o amor, consegue construir sequências engraçadas, inspiradas, e até mesmo boas cenas dramáticas.
A Outra - 1/5 Aparentemente, com a grana usada para contratar Natalie Portman, Scarlett Johansson e Eric Bana, não sobrou nenhum centavo pra investir no resto da produção. A história é mais cortada que palavrão em filme da Globo, as cenas são forçadas, e o drama é tão superficial que daria pra fazer uma piscina de bebês com ele. E não, não rola putaria.
Marley & Eu - 3/5 Tirando o bom elenco (Jennifer Aniston, mais uma vez, provando que tem talento demais pra ser ofuscada pela Rachel de Friends), o filme não tem nada demais. Não tem mesmo. Entretanto, se a pessoa já, pelo menos uma vez na vida, sequer segurou um cachorro nas mãos, vai desovar lágrimas o suficiente para resolver o problema da falta de água no mundo.
O Cativeiro - 3/5 A premissa do filme é bem interessante. A trama desenvolvida, apesar de um tanto batida, também dá pro gasto. As reviravoltas na história são críveis. A execução cumpre seu papel. Enfim, tem tudo certinho, mas, assim como o Grêmio de 2007, falta um Riquelme em algum lugar por ali.
Cada vez que percebo os avanços tecnológicos que o homem alcançou desde que aprendeu a esfregar dois pauzinhos e fazer fogo (insight mais genial da história), fico impressionado. Certo, ainda não estamos na época dos carros voadores, mas já despachamos uma galera até aquela bolona branca no céu, transferimos arquivos pelo ar, podemos estabelecer a temperatura que quisermos dentro de um ambiente fechado, temos um telefone que faz muitos computadores parecerem um Pense Bem, possuímos acesso a praticamente todo o conhecimento do mundo em questão de minutos.
Entretanto, devo dizer que nada disso, nem mesmo o Winning Eleven, me arrebatou tanto quanto o que vou mostrar a seguir:
Home Theater 5 in 1: pra torcer pelo Grêmio e secar o Inter ao mesmo tempo
Home Theater com tema do Indiana Jones - de tirar o chapéu
Home Theater com tema do Batman. Eu não sabia que a felicidade podia ser literalmente comprada.
Confiram mais fotos dessas genialidades criadas pelo homem e de outros complexos de lazer absoluto aqui.
Harry Potter e o Enigma do Príncipe (Harry Potter and the Half-Blood Prince) 5/5
Direção: David Yates Roteiro: Steve Kloves, baseado em livro de J. K. Rowling (como se vocês não soubessem essa última parte)
Elenco Daniel Radcliff (Harry Potter) Emma Watson (Hermione Granger) Rupert Grint (Ronald Weasley)
Quando mais um ano começa em Hogwarts, Harry Potter e sua turminha do barulho precisam aprender a lidar com seus hormônios e com os nefastos Comensais da Morte rondando por perto - embora, todos saibam, problemas com mulheres fazem os inimigos do bruxo tão assustadores quanto o Botafogo. Paralelo a isso, o professor Dumbledore e Potter investigam o passado de Voldemort pra descobrir qual é a moral daquele sujeito.
Dizer que o filme literalmente já começa sombrio não seria exagero: o logo da Warner surge em meio a um céu nublado, e a primeira cena mostra o protagonista arrasado com tudo que aconteceu no episódio anterior. Daí pra frente, a atmosfera da película mantém-se tensa até o final. Os sorrisos e brincadeiras nos corredores da escola foram substituídos por expressões sisudas. A câmera se esgueira pelos cantos, como se estivesse sempre à espreita. E a própria mágica já tornou-se algo corriqueiro, parte do dia-a-dia - se nos primeiros episódios da série ela era divertida, aqui os feitiços não possuem, digamos, intenções tão inocentes. Contribui para esse climão a fotografia, que capta boa parte das imagens de forma quase monocromática (com exceção de lugares mais confortáveis, como a casa dos Weasley), e a trilha melancólica que chora solenemente durante a projeção.
Todas essas decisões são acertadas, pois O Enigma do Príncipe começa o segmento final da série (ainda virão mais dois filmes, que vão dividir Relíquias da Morte, o último livro). Assim sendo, aumenta a carga dramática de cada cena, aumenta a pressão em cima dos protagonistas, aumentam as escolhas difíceis que cada um precisa fazer. O tom de urgência fica claro em duas sequências de ação desnorteantes: o ataque à casa dos Weasley (sem trilha, edição ágil, correria do cão, nível DEFCON 1 de suspense) e o quebra-quebra entre Draco e Harry (antes prerrogativa para piadas e situações engraçadas, agora o antagonismo dos dois leva a uma das cenas mais chocantes do longa). Sim, nesse filme não tem nada de fair play, aqui vale carrinho desleal por cima da bola, cotovelaço quando o juiz não tá olhando, puxar cabelo, esse tipo de coisa. O buraco desce ainda mais quando vemos que Dumbledore, normalmente calmo e pacato como um funcionário público, fica ansioso e preocupado com o rumo dos acontecimentos. A perturbação da personagem mais sensata da série é sinal de que vem problema.
Foi um longo trajeto desde o divertido Harry Potter e a Pedra Filosofal até este tenso Harry Potter e o Enigma do Príncipe. E o mais impressionante é que foi uma mudança gradual, como se Harry, Ron e Hermione estivessem crescendo junto com seus fãs. Esta última película representa um ponto sem volta na vida das personagens, onde elas precisam enfrentar o fato de que nem sempre há um final feliz. Essa aproximação entre os bruxos e as pessoas comuns é que envolve o espectador com o filme. Os efeitos especiais são impressionantes, certo, mas é nos pequenos momentos onde o trio protagonista se comporta simplesmente como um bando de amigos que a história faz sua mágica.
Andei lendo por aí que ativistas meio-ambientísticos consideram a nova turnê do U2 (com um palco que faz a ISS parecer uma caixa de Lego) uma afronta à natureza - de acordo com o site carboonfootprint.com, a quantidade de CO2 emitida pela turnê seria suficiente para levar os roqueiros à Marte e trazê-los de volta. Imagino que isso seja muito, uma vez que, assim como qualquer pessoa, eu não faço idéia do que seja necessário para levar uma condução até nosso vizinho vermelho, e pra mim a definição dada pelo site é tão pertinente quanto os canais da NET antes do AXN.
A coisa piora porque todo mundo sabe que o U2 é uma banda politicamente engajada. Os integrantes da banda de rock U2, conhecidos por fazer campanhas em prol do meio ambiente, de acordo com a matéria da Veja. Só que eu não me lembro exatamente dos irlandeses indo salvar focas no ártico ou plantando árvores mundo afora. Na verdade, não me recordo de ter visto Bono na conferência pelo meio ambiente. O que é estranho, já que o rótulo de "banda politicamente engajada" automaticamente os coloca no time daqueles que fazem campanha em prol do meio ambiente, certo? Ainda que a banda toque pouco nesse assunto (no site, só achei um link pro Greenpeace; em shows ou o Bono visitando animais em extinção e florestas queimadas, nunca vi nada relacionado).
Não que isso justifique eles utilizarem um Transformer como palco, não é esse o ponto. Só que ao ver a imprensa defensora dos fracos e oprimidos gritando "como o U2 quer salvar o mundo se polui o ar?", sem agregar nenhuma informação que dê embasamento à essa afirmação, lembrei de uma questão pertinente a outra pauta que tomou conta dos veículos de mídia: por que tanta confusão com a não-obrigatoriedade do diploma para jornalista? O próprio jornalismo já não é obrigatório há muito tempo.
Adiei a coluna pra quarta-feira, porque é quando Harry Potter aterrisa nos cinemas para duelar até a morte com bruxos malignos, criar animais de CGI com sua varinha, conjecturar feitiços em cima de seus inimigos e adivinhar a carta que alguém da platéia escolheu.
A certa altura da minha última passagem por São Paulo, entrei em um barzinho com o bem delineado objetivo de comprar um Chokito. Não era lá um grande bar, parecia que alguém havia dinamitado uma estrutura de concreto e colocado cadeiras no buraco subsequente, mas dava pro gasto. Após realizar o escambo, o balconista iniciou uma troca de diálogos a respeito da final da Copa das Confederações, entre Brasil e EUA, que ocorreria no dia seguinte:
- E aí meu, cê vai torcer pelo Brasil ou pelo seu país amanhã? - ... o que? - Cê vai torcer pelo Brasil ou pelo seu país? - Ahn... pelo... meu país? - Claro. Cê é americano, não é?
Depois as pessoas reclamam quando eu digo que não gosto de conversar com estranhos. Enfim, o espírito de escadaria me diz que da próxima vez eu devo responder com um "Isso depende: tu é um terrorista?", ou algo do gênero. E também colar na camiseta um adesivo do Grêmio com o slogan YES WE CAN.
A coisa é bastante óbvia: em Black or White, Michael Jackson fala, também, sobre si mesmo, declarando que não importa se ele era branco e virou negro, ou se era negro e virou branco, porque ainda é quem ele é. Infelizmente, foi uma daquelas mensagens que as pessoas acham bonito na hora mas se esquecem no minuto seguinte, tornando o ato de concordar com as palavras mais importante do que agir de acordo com elas. Qualquer atitude levemente diferente por parte de Michael Jackson era elevada à décima potência, tornando-se o estopim para que todos bradassem, do alto de suas inocências, que Jackson era doente. Que não era humano. A simples acusação de pedofilia já o tornou um pedófilo. Suas músicas foram deixadas de lado, e a pauta era encontrar qualquer coisa que pudesse ser noticiada nos tablóides como bizarra. Mais do que ver alguém chegar ao estrelato, as pessoas gostam de ver uma estrela cair.
No tributo de hoje foi dito publicamente a Michael tudo o que ele gostaria de ter ouvido em vida. Personalidades subiram ao palco e declararam aos quatro ventos que não havia nada errado com Jacko. Os microfones ecoaram palavras bonitas, e de uma hora pra outra todos viraram defensores ferrenhos do artista. Mas com exceção de um ou outro discurso, uma ou outra performance, foi uma cerimônia protocolar. Destemperada. Tudo indica que um palco foi construído às pressas para ser transmitido pela televisão e fazer as pessoas chorarem ao redor do mundo. Mais um show do que um tributo.
Quando os julgamentos do astro viraram a novela favorita de muita gente, centenas de fãs foram ao tribunal gritar pela inocência de seu ídolo. Pessoas apaixonadas, que foram tocadas pelas canções e agora retribuiam do jeito que conseguiam. Foram por vontade própria, construindo uma bela definição de "lealdade", aquela característica intrínseca aos amigos. São esses e outros milhões que sentiram o baque de perder alguém. A garota que chorava enquanto ouvia toda a discografia do Michael Jackson de novo e de novo. O sujeito que tirou do armário sua jaqueta, semelhante à do ídolo, e a vestiu como se fosse uma capa de melancolia. Os pequenos grupos que acenderam velas e rezaram pelo rei do pop. E eles não estavam lá no tributo, hoje, onde os verdadeiros amigos de Michael se confundiam com artistas atrás de autopromoção e o politicamente correto. Não é um evento para os fãs, porque as celebridades chamam mais atenção e audiência, mas também porque as nossas homenagens são grandes demais para caber em um ginásio fechado.
O verdadeiro tributo ao rei do pop está sendo construído desde o dia em que ele foi dançar com as estrelas, e talvez nunca esteja completo. Ele é o texto que a Anne escreveu aí embaixo. É o Bono, em Barcelona, cantando Billie Jean. São os inquilinos de uma prisão fazendo uma coreografia no pátio. É alguém dando o passo da lua numa avenida do Rio. São os vídeos criados, recriados, montados, feitos, refeitos, carinhosamente colocados no YouTube.
A cerimônia de hoje em Los Angeles foi apenas isso, uma cerimônia. Necessária, talvez, mas ainda assim longe de representar um tributo. As homenagens mais sinceras e sentidas não vêm de pessoas que acreditaram em todo o mito e na personagem criada pela mídia, mas sim de pessoas, como eu, que desde sempre acreditaram em uma coisa sobre Michael Jackson.
A maioria de nós vive na medíocridade. Naquela linha tênue que separa o maravilhoso do insuportável. Passamos anos e anos tentando ser bons naquilo que fazemos, mas, verdade seja dita, geralmente o máximo que conseguimos é não sermos ruins.
O fato é que nenhum de nós sabe dizer o que é realmente bom. Pelo menos não até que apareça alguém capaz de nos enfiar toda e qualquer concepção sobre talento rabo adentro e mostre como é que se faz.
Essas pessoas vem ao mundo com o único objetivo de dar à humanidade um pequeno vislumbre da perfeição e geralmente só ficam por aqui tempo o suficiente pra se tornarem inesquecíveis. Simplesmente porque esse não é o seu lugar. Este não é um mundo de perfeições.
E por isso, este nunca seria um mundo pra Michael Jackson, com suas mil faces e talento único. Afinal, o homem que dava passos na lua não poderia continuar caminhando sobre a Terra.
Born to amuse, to inspire, to delight Here one day Gone one night
Like a sunset Dying with the rising off the moon Gone too soon
Tom Hanks recém havia colocado seu segundo Oscar no bolso quando resolveu fazer um filme. Uma comédia despretensiosa, divertida, que contasse a simples história de alguns amigos montando uma banda.
Foi então que The Wonders - O Sonho Não Acabou (pior subtítulo) veio à tona, sem grandes estrelas no elenco (exceto o próprio Tom Hanks) ou um orçamento capaz de combater a fome na África. Mas o futuro náufrago sabia das coisas: reuniu atores carismáticos, uma trilha sonora que acertaria uma uva a 300 metros de distância de tão certeira e construiu um filme inesquecível, pontuado por grandes cenas e um EQEL! que dá vontade de levantar e sair correndo junto:
O disco Riot Act, do Pearl Jam, é um labirinto pra mim. Tipo, tem Love Boat Captain, que é a música 3, e tem cara de música 3. Mas em seguida vem Cropduster, que não tem cara de música 4, e sim de música 3! Pra continuar, as canções subsequentes deveriam ser nomeadas como se Cropduster fosse a terceira faixa do disco, já que essa distribuição parece mais natural e correta (não existe uma canção mais MÚSICA 6 do que Thumbing My Way, por exemplo).
Só que isso não acontece, pois tem Love Boat Captain ali no meio, que, ao mesmo tempo em que está perfeitamente no seu lugar, desloca todas as outras canções do disco. Então, por exemplo, quando eu quero ouvir I Am Mine, coloco direto na faixa 5 e falho miseravelmente em minha empreitada.
Grêmio 2 x 2 Cruzeiro Gols: Wellington Paulista, 34' e 36' 1°T (Cruzeiro); Réver 9' e Souza 29' 2°T (Grêmio) Local: Estádio Olímpico, Porto Alegre
Esse seria o momento de dizer que o Grêmio foi valente, e brigão, e que foi pra cima do Cruzeiro e tentou sempre buscar um resultado, mesmo que fosse inalcançável. Porque o Grêmio foi valente, e brigão, e foi pra cima do Cruzeiro e tentou sempre buscar o resultado. Mas só fez isso porque deixou a situação chegar a tal ponto.
Maxi Lopes e Alex Mineiro, na primeira partida, definiram a classificação cruzeirense ao errar dois lances que, de tão fáceis, deveriam levar os jogadores à corte marcial. A raposa astuta não desperdiçou suas chances lá e veio pra Porto Alegre carregando uma boa vantagem nas malas. Precisando do resultado, o Grêmio se inflou de hélio e começou a mandar balão atrás de balão, na esperança que o medíocre Maxi Lopes e o incansável Herrera fizessem alguma coisa com as bolas quadradas que recebiam. Não fizeram. Quem fez foi Kléber, o Gladiador: na linha de fundo, passou por Fábio Santos como um estudante do terceiro ano passando por um da segunda série e cruzou rasteiro, permitindo que Wellington Paulista chutasse a gordinha no meio de todos os zagueiros do mundo. Cruzeiro um a zero. Um MICROÍNFIMOMILIONÉSIMO de segundo depois, a pior linha de impedimento da história do futebol deixou o mesmo WP à vontade para cabecear e marcar um segundo - um adolescente com acesso à pornografia na internet e uma tranca na porta do quarto não teria tanta tranquilidade.
Veio a segunda etapa e agora o tricolor precisava de cinco gols pra se classificar à finalíssima (mais ou menos o número de gols que Maxi Lopes tem na carreira). Ainda desorganizado, mais na vontade do que na técnica, foi indo pra cima, tentando acossar o Cruzeiro, que apesar dos gols não fazia mais do que uma partida mediana. A força de vontade do Grêmio foi tanta que Tcheco cobrou um dos milhares de escanteios da noite e Réver, o Escolhido, saltou alucinado para enfiar a pelota dentro do gol. Faltavam só quatro. Pouco depois Wagner escapou pela esquerda feito uma gazela, em contra-ataque, e teria chegado facilmente ao gol se não tivesse sofrido um golpe de PANCRÁSSIO desferido pelo volante Adílson (até então o melhor gremista no jogo). Vermelho pra ele, e o tricolor com um a menos. Os cruzeirenses poderiam sentar no gramado e jogar Banco Imobiliário se quisessem, e ainda assim sairiam classificados.
Aos 29 o endiabrado Souza acertaria um chute daqueles de apresentar pra família, empatando o jogo, mas o placar não mudou mais. Diversas reclamações sobre um pênalti não marcado em Herrera (e que realmente ocorreu - arbitragem FAIL) quando a partida ainda estava 0 a 0 estão sendo vociferadas aos quatro ventos, só que não foi isso que eliminou a equipe gaúcha. Chances foram criadas, oportunidades apareceram. E os gols que ficaram pelo caminho, que não percorreram sua trajetória natural até o fundo das redes, foram os responsáveis por deixar o Grêmio pelo caminho da competição. Antes de qualquer coisa, falta quem consiga empurrar a bola pra dentro nesse time - a menos, claro, que todos estejam seguindo a famosa filosofia de Parreira, aquela da qual veio o sábio dizer "o gol é apenas um detalhe".
Transformers - A Vingança dos Derrotados (Transformers: Revenge of the Fallen) 2/5
Direção: Michael Bay Roteiro: Ehren Kruger, Roberto Orci e Alex Kurtzman
Elenco Shia LaBeouf (Sam Witwicky) Megan Fox (Mikaela Banes) Hugo Weaveing (Megatron - voz) Peter Cullen (Optimus Prime - voz)
É a história do primeiro filme recauchutada e com mais alguns milhões de dólares no bolso pra gastar.
Os blockbusters sobrevivem de campanhas publicitárias, tanto os bons quanto os ruins. A sua condição enquanto produto é que leva as pessoas à sala de cinema, e forma no público alvo uma imagem de qualidade antes mesmo que o filme entre em cartaz - prova disso é que Satã conseguiu infiltrar no nosso mundo não apenas uma, mas duas crias suas (Quarteto Fantástico e Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado, respectivamente).
Por isso, com exceção de franquias já mais ou menos planejadas (Piratas do Caribe, Homem-Aranha, X-men), uma continuação de um blockbuster geralmente não passa do primeiro filme vitaminado (mais orçamento, mais personagens, mais campanha publicitária). E Transformers 2 nada mais é do que isso: volta a mesma trama sobre o tal Cubo, a peleja entre os Autobots e os Decepticons, a Megan Fox fazendo pose sexy até em cenas tristes, e por aí vai. Só que pra valorizar o 2 ao lado do título, o diretor Michael Bay foi pra feira de robôs e atolou o filme com esses nossos amigos mecânicos. Então o negócio é mais ou menos o seguinte: a cada cinco minutos, um pedaço de metal irrompe na tela, ataca alguém/faz alguma gracinha, se transforma em outro objeto e é eliminado.
Mas o que a primeira cena de ação do filme maquia é que o resto da película não tem uma sequência empolgante. Nada. É como sentar e ver alguns liquidificadores se chocando por duas horas, com algumas explosões no meio - até porque o diretor não faz questão nenhuma que o espectador se interesse pela robozada. Os Decepticons, por exemplo, são pretos e do mau. E é isso. Encontrar um Decepticon específico em uma festa de Decepticons deve ser mais difícil do que encontrar um comentarista esportivo com diploma em jornalismo. Já os Autobots, embora visualmente diferentes, são simples caixas coloridas que lutam. Peguemos o Optimus Prime: por quê diabos as pessoas seguem ele? Por que ele é o líder? Ora, durante a projeção (e isso é algo que já acontecia no filme anterior) ele não faz nada que o Jackie Chan não faria. A conclusão lógica e nauseante é que as pessoas acreditam em Optimus Prime porque ele tem o visual mais afu e é mais alto que o resto da galera. E isso torna os Autobots uma grande turminha de terceira série.
Ainda assim, aqui e ali alguma coisa consegue se salvar, principalmente graças ao carisma de Shia LaBeouf. É quando Sam está em cena que Transformers 2 consegue ser pelo menos um pouco divertido, embora seu amigo Leo tente sabotar com todas as forças esse pequeno nuance de qualidade. Os roteiristas também entram na dança e deixam o pai e a mãe de Sam com muito mais minutos em cena do que o ideal, enquanto Megan Fox é colocada numa moldura e pendurada como enfeite em todas as cenas. Essa galera está ali simplesmente pra jogar a história adiante, enquanto Michael Bay se regozija com seus planos contraluz, câmera lenta, explosões, câmera girando e por aí vai, tudo num excesso digno de CARAS.
Entretanto, as melhores sequências aidna são aquelas onde Sam e Mikaela interagem com pessoas, e não com fusíveis - o que não deixa de ser um grande problema para um filme que gastou R$200 milhões em latas velhas que, de empolgante mesmo, só possuem os cartazes e trailers da campanha de marketing.